[1] J. J. Rousseau por A. Lamartine.
II
A. P. Lopes de Mendonça
Ha phrases que envolvem uma prophecia, conceitos despretenciosos que parecem sahir do intimo da alma como um presentimento que de repente assalta o escriptor no remanso do gabinete.
A pag. 324 das Memorias de litteratura contemporanea, de Lopes de Mendonça, encontro eu estas palavras:
«Ha vocações, que reproduzem os prodigios das sibyllas antigas. Prophetisam involuntariamente sobre a tripode, e deixam-se arrastrar pelo enthusiasmo das suas proprias palavras. O joven poeta não cantava, sómente para que as turbas se deixassem commover pela harmonia dos seus cantos: cantava porque lhe ardia no peito um fogo devorador, porque a sua alma{18} ébria e palpitante, lhe accendia a imaginação, e como lhe intimava que traduzisse aos outros a magia dos seus sonhos, o fervor dos seus desejos, o esplendido irradiar da sua esperança.»
É certo que os verdadeiros talentos, as almas privilegiadas para a gloria e para o martyrio, reproduzem os prodigios das sibyllas e prophetisam involuntariamente.
Lopes de Mendonça escrevendo as Memorias d'um doido prophetisava tambem.
Aquelle immenso talento, febril, audaz, infatigavel, sabia que as organisações como a sua resistem corajosamente a lucta social até perderem a vida ou a razão.
Mauricio, o seu heroe, é o que geralmente se chama um doudo sublime,—que pensa, que joga, que ama, que aborrece, que porfia, que se sacrifica, que obedece fatalmente á excitabilidade do seu temperamento.