—O morgado de Muxagata, ou simplesmente o Muxagata, como elle era conhecido ha vinte annos no Porto, tinha solar a onze leguas de Lamego, na aldea d'aquelle nome.

Por setembro apparecia na Foz do Douro com uma coudelaria inteira, que lhe permittia variar de cavallo seis vezes por dia. Gostava d'isso, e lisonjeava-se de que as mulheres viessem á janella alarmadas pelo tinido aspero das ferraduras nos burgaus da rua Direita e de Cima-de-Villa.

Era, de resto, um typo de classe, porque nas praias de Portugal não se perdeu ainda o molde do morgado de provincia com manhas de picador e boleeiro.

Ha sempre um para amostra.

Todos os dias ia banhar os cavallos á praia dos Inglezes, que era a menos frequentada. Gastava duas horas n'esse trabalho, e elle proprio era o banheiro dos seus animaes que, á força de acicates, acabavam por investir com a onda.

O Muxagata encharcava-se dez vezes em cada manhã desde os pés até aos hombros.

Sentia-se satisfeito com essa maçada quotidiana, que sempre attraía alguns espectadores. E todo o seu orgulho consistia em saber-se nomeado como o melhor pé de estribo e a melhor mão de rédea que ginetava na Foz.

Eu vi-o pela primeira vez na rua Direita, n'um predio fronteiro á rua Bella.{16}

Morava eu ali perto. Sabia-se que vinha para aquella casa o Muxagata, e um bello dia começaram a chegar criados e cavallos. No outro dio chegaram cavallos e criados. No terceiro dia chegaram criados, cavallos, e palha.

Ao quarto dia correu voz de que chegaria o morgado.