—Muito certa. Meu pai fugiu para o Porto com uma fidalga de Lamego.{167}

—E depois?

—Meu pai arruinou-se, e foi morrer ao abandono no seu solar. Minha mãe tomou amores com outro homem, que tambem era morgado, e que caiu doente com uma molestia da espinha, que o poz muito impertinente. Eu tinha apenas dois annos e, como fizesse barulho brincando, foi preciso tirarem-me de casa. Mandaram-me então para Lamego.

—Para casa da familia de sua mãe?

—Isso sim! A familia de minha mãe nunca mais lhe perdoou a sua falta. Mandaram-me para casa de uma pobre mulher, a tia Senhorinha, que era irmã de leite de minha mãe. Fui crescendo entregue aos cuidados da tia Senhorinha, que era viuva, e que vivia de fazer mandados. Era ella quem dava todas as voltas em casa do major Gouvêa, de infantaria 9, que era muito bom homem, casado com uma santa senhora. Como não tinham filhos, foram-se-me affeiçoando, e eu passava lá os dias emquanto a tia Senhorinha andava lidando na cozinha ou dando voltas por fóra.

—E sua mãe não mandava mesada nenhuma á tia Senhorinha?

—A principio mandava meia moeda por mez, mas quasi nunca escrevia. Depois o sr. major Gouvêa, quando a tia Senhorinha morreu de um grande resfriamento que a tolhêra, tomou conta de mim, mandou dizer a minha mãe que guardasse as suas migalhas de dinheiro, e minha mãe{168} nunca mais tornou a escrever, não quiz mais saber de mim.

—E o que foi feito de sua mãe?

—Não sei! O sr. major Gouvêa não queria que se falasse d'ella.

—Mas como foi que a menina veiu parar a Lisboa?