—Ó meu senhor! eu nasci para ser desgraçada!{170}
—E, se fosse preciso, a menina poderia provar tudo isso que me tem contado?
—Vive na rua da Padaria a sobrinha da sr.ª D. Clara, em casa de quem eu costumo ficar por esmola, quando estou desarrumada. Ella que diga se isto é verdade ou não.
Como não podia deixar de ser, a revelação d'este dialogo causou-nos profunda surpresa. Chamamos a rapariga, que repetiu todas as declarações anteriores.
—Mas isto é um verdadeiro romance! disse eu.
—Começado por ti e acabado por mim! observou orgulhosamente o Leotte.
—Tens razão.
—O que eu não sei, disse-me o Vasconcellos, é como tu e os teus collegas em lettras teem o condão de encontrar sempre um romance em toda a parte!
—Sempre, não. Poucas vezes até o acaso poderá ter fornecido um tão completo romance. Este a mim mesmo me surprehende.
—Sim. D'este não posso eu duvidar, porque estou assistindo a elle. Mas—continuou o Vasconcellos—tenho corrido todo esse paiz, e nunca encontrei nenhum romance nem coisa que o parecesse.