—Se tu fosses escriptor terias, por hipothese, feito dez romances; d'esses dez, nove seriam inventados, e apenas um verdadeiro. Notando que{171} o mais inverosimil seria talvez o unico verdadeiro.

—A julgar por este, assim é.

O Gonçallinho Jervis estava visivelmente entregue a dois pensamentos: um, que dissimulava; outro, que manifestava com vehemencia.

O primeiro adivinhava-lh'o eu: era um intimo desgosto de não ter sido elle que surprehendesse o romance.

O segundo inspirava-lhe indignadas apostrophes contra a mãe descaroavel que abandonára a sua propria filha á miseria, talvez á deshonra.

—Ah! Gonçallinho, é d'essa triste verdade que nasceu a creação das rodas dos expostos, dos asilos, das misericordias, de todas as piedosas instituições de assistencia publica. Mas parece que tu não vives n'este mundo! Pois não lês nos jornaes, todos os dias, noticias que te ensinam que ha mães que expõem as filhas, que as matam, que as vendem!... E pensas que todas essas torpes mães serão desgraçadas! Só são castigadas as que caem nas mãos da policia. As outras viverão decerto tão felizes como D. Christina.

Mas era preciso abandonarmos philosophias, tomar alguma resolução pratica.

Duas coisas ficaram logo resolvidas:

1.ª Que se escreveria ao Callixto, que tinha ficado em Lisboa, para ir á rua da Padaria procurar a sobrinha de D. Clara Gouvêa, a fim de pessoalmente verificar se as declarações d'ella{172} coincidiam com as da Rosa. Ficariamos em Cintra esperando a resposta.

2.ª Que eu inventaria á noite uma historia qualquer que, visando ao coração das mães descaroaveis, pudesse revelar-nos o arrependimento ou o cinismo de D. Christina.