—É exacto, disse do lado um morgado beirão.

—Elle não sabe uma palavra, ponderou com verdade o visconde, d'esta historia natural, que nós cá praticamos.

Segui attentamente com os olhos o que o visconde denominava a manobra das pavôas. Voando de ramo em ramo, e a longos intervallos de tempo, iam desapparecendo, sumindo-se arteiramente na espessura do arvoredo.

Alguns pavões levantavam o vôo após ellas, e então as pavôas voltavam, aproximavam-se do sitio em que estavamos, demoravam-se, disfarçando o melhor que podiam a sua intenção.

—Mas isto é admiravel! exclamei eu, isto é sublime de amor maternal!

—Temos ode! gracejou o visconde. Isto é o que é. Isto são as pavôas que não querem que os pavões lhes comam os ovos. Nada mais e nada menos. Não tens visto isto por lá na sociedade das grandes cidades? Pois olha que não devem faltar pavões...

—Mas faltam as pavôas.

—Isso acontece em toda a parte, replicou o visconde, piscando-me um olho e movendo o queixo na direcção da nobre Lucrecia pudibunda.

Comprehendi o seu gesto.

N'esse momento, a fidalga descendente do rei{179} Vamba seguia com tranquilla curiosidade a manobra das pavôas, como nós todos. Não parecia envergonhada de confrontar-se moralmente com ellas. De certo lhe não passava pelo espirito a lembrança de que annos antes tinha enviado á roda de Vizeu um filho, cujo destino ignorava.