Decidiu-se que escreveriamos a D. Christina uma carta, que seria assignada por todos nós. Essa carta, secca e laconica, quasi imperativa, dizia assim:
«Ex.ma Sr.ª
V. Ex.ª vive tranquilla e feliz. Sem embargo, sua filha encontra-se n'uma situação desgraçada, tão desgraçada, que é ella propria quem, no hotel Victor, está ao serviço de v. ex.ª É a sua criada de quarto.
«Se v. ex.ª duvidar d'esta nossa informação, queira dirigir-se á rua da Padaria n.º... 2.º andar, e procurar a mulher de M. A. P., empregado na alfandega.
«Esperamos que o coração de v. ex.ª experimente, ainda que tarde, um movimento de compaixão por essa pobre creatura, que, segundo nos informam, tem sabido conservar-se digna de melhor sorte e, digamol-o com franqueza, de melhor mãe.
«Se V. Ex.ª despresar o aviso que lhe fazemos, ver-nos-hemos na necessidade violenta de o repetir a seu marido, cuja alma bondosa se revoltará decerto contra a dureza de coração de sua{183} mulher. Portanto acreditamos que v. ex.ª, sem prejuizo da sua actual posição, conseguirá encontrar meio de lhe revelar a existencia de sua filha, podendo talvez dizer-lhe que até hoje a havia procurado sem comtudo a poder encontrar.
«Não seremos nós que, n'esse caso, o desilludiremos denunciando-lhe toda a verdade na sua nudez hedionda.
«Mas se v. ex.ª, pelo contrario, entender que deve zombar do sentimento de justiça a que obedecemos, seremos obrigados a provar-lhe que o seu coração não merece a compaixão de ninguem.»
Escripta esta carta, resolvemos confial-a a Maria de Alarcão para que a entregasse a D. Christina, e partimos immediatamente de Cintra, depois de ter recommendado que, no caso de D. Christina recusar recebel-a ou lel-a, nos fosse mandado aviso para Lisboa.
Tanto D. Christina como o brazileiro se mostraram muito contrariados com a nossa ausencia, especialmente o brazileiro, que nos abraçou a cada um e offereceu a sua casa em Lisboa na rua das Praças.