N'outra occasião, nós teriamos rido certamente do passarinho que tem no Brazil o nome de um historiador portuguez.
Mas o contraste da bondade simples do brazileiro com a crueza glacial de D. Christina encheu-nos de simpathia e de estima por esse amoravel velho, que havia ligado o seu destino a uma mulher sem coração.
D. Christina, mostrando-se enfadada com os commentarios do marido, disse abruptamente, cortando-lhe a palavra:
—Vamos lá á nossa partida, que estou hoje com grande raiva aos valetes.
D'onde o Vasconcellos quiz concluir que ella, indignada com a minha historia, tivera em vista chamar-me valete.{181}
XIX
Veio a resposta do Callixto.
A sobrinha de D. Clara Gouvêa confirmou plenamente as declarações da filha do Muxagata, acrescentando-as com excellentes informações a respeito da pobre rapariga.
«Disse-me ella, escrevia o Callixto, que tem a pequena na conta de muito honesta. Sempre mostrou muito juizo. Se a não tem em casa, é porque se peja de assoldadar como criada uma rapariga fina, filha de um fidalgo; como pessoa de familia não a póde sustentar, porque tem muitos filhos, o marido ganha pouco na alfandega, e da tia Clara apenas herdou uma insignificancia. Diz ella.»
Em vista d'esta carta, conferenciamos sobre o que deviamos fazer para impôr a D. Christina o dever de olhar por sua filha. O primeiro alvitre que nos occorreu foi o de contarmos tudo ao brazileiro.{182} Mas ao cabo de alguma discussão, rejeitamos o alvitre, porque elle poderia ter um desfecho tempestuoso. Preferimos, portanto, os meios suaves e conciliatorios.