Ella odiava os valetes, dizia. Na sua confiança nas quinas mostrava-se uma boa portuguesa de Lamego.
Vestia bem: rendas, flores e joias. As joias explicavam os cumprimentos dos ourives da rua das Flores ao Muxagata.
Usava o cabello apartado ao lado, com duas bellezas. Chamava-se bellezas aos anneis de cabello empastados sobre a fronte. Coisa tentadora, que desappareceu da circulação.
—É verdade! obtemperou o Leotte.
Prohibiram-lhe que interrompesse.
O pó de arroz, continuei eu, era ainda considerado como um deboche de toillette. D. Christina punha muito pó de arroz na face, no collo e nas mãos, especialmente nas mãos.
Tinha predilecção pela essencia de violeta. Ora os perfumes eram n'aquelle tempo outro deboche de toilette. As mulheres não cheiravam a nada ou cheiravam mal.
Podem vocês admirar-se de que uma mulher de Lamego se avantajasse dez annos ás outras portuguezas em mise-en-scène de coquettismo. D. Christina tinha pendor natural para a vida espectaculosa. Estas aberrações não são das terras; são dos temperamentos. Uma patricia dos presuntos de Lamego póde nascer tão coquette a dois passos da serra da Gralheira, quanto uma creatura{20} nascida entre os jardins de Harlem póde sair brutalmente apresuntada por fóra e por dentro.
De mais a mais o Muxagata, tendo-lhe conhecido a bossa, desenvolvera-lh'a. Educára-a como amante. O idillio de contrabando precisa ganhar em aperitivos acirrantes o que naturalmente lhe falta em tranquillidade sincera. As amantes são actrizes de um palco em que se representa a comedia do amor; as esposas são as sacerdotisas de um culto domestico, que se faz valer por si mesmo. A differença é grande. D. Christina tomava a sério o seu papel de actriz, e esforçava-se por que nos applausos do publico entendido reconhecesse o empresario a conveniencia das aptidões theatraes da artista.
Rodaram mais dois annos.