A casa da rua das Fontainhas continuava a ser o rendez-vous dos estroinas do Porto. Falava-se de perdas e lucros fabulosos na batota do Muxagata, que fazia concorrencia á do D. Marcos. Muxagata galeava ainda o mesmo luxo de cavallos, em competencia com o Ferreirinha; e a mesma pompa de fatos exoticos á porfia com o Ricardo Brown, porque ambos appareciam ás vezes de collete vermelho com botões de ouro.
Dizia-se porém que a casa de Muxagata estava empenhada. O milho, sua principal colheita, não chegava para tanto. O vinho não era muito. Legumes, hortaliças, amendoas, sumagre, eram em{21} grande quantidade, mas produziam pequenas receitas. A casa cobrava muitos fóros, n'uma e outra margem do Douro, desde Lamego até Entre-ambos-os-rios, mas andavam atrazados.
Um dia deu-se pela falta do Muxagata. Correu que tinha ido apurar rendimentos, que se ficavam por mãos de caseiros e foreiros remissos. Assim fôra, effectivamente. O Muxagata estava no seu solar ou por ahi perto. D. Christina continuava a habitar a casa da rua das Fontainhas. Não saía a pé nem a cavallo.
Pelo tempo das colheitas a minha familia ia para uma quinta no concelho de Sinfães. No fim de setembro fazia-se a feira do Escamarão, que mettia os pimpões de muitas leguas em redor: o Nascimento pae, o Tameirão, o fidalgo da Cardia, o José Ignacio de Covas, e outros.
Eu tinha que matricular-me nas aulas do Porto. Propunha-me estudar introducção aos tres reinos, da natureza, como então se dizia, com o dr. Almeida Pinto. Fui para a feira, e d'ahi devia embarcar para o Porto, em companhia do meu condiscipulo Alfredo Leão.
A feira abrira muito animada. O feminino montesinho concorrera em abundancia. De morgados havia para cima de um quarteirão. E de ourives do Porto estavam armadas sete barracas. Comia-se, bebia-se, batoteava-se á grande. As melancias tinham, como refresco, um consumo extraordinario. O regedor Antonio Pedro, emquanto os{22} cabos de policia dormiam á sombra das arvores, micava no rei.
Creio que foi o Tameirão que deu a boa nova de que o Muxagata estava na feira. Disseram-m'o. No meio da minha tristeza por ter que partir para o Porto, agradou-me a noticia. Fui procural-o.
—Que sim; que estava ali para cima a jogar.
—Mas que veiu elle cá fazer?
—Anda aos fóros. Quer dinheiro.