—Saberemos depois... dizia o Vasconcellos, fustigando as orelhas do burro rebeldemente ronceiro.
A varzea de Collares estava realmente encantadora n'aquelle dia. Pairava no ar uma serenidade{42} saturada de bucolismo e de limpidez campestre, capaz de inspirar idillios á alma de um agiota. As arvores floridas perfumavam o ambiente. As aguas do rio das Maçãs dormiam como a superficie de um espelho. Passaros cantavam entre o arvoredo, mas não eram certamente rouxinoes, o que desesperou o Gonçallinho Jervis.
Fomos seguindo para o mar, na direcção do Cabo da Roca. Muitos rapazitos de Collares acompanhavam-nos, correndo, pulando adeante de nós. Iam na esperança de que quizessemos vel-os descer pela Pedra de Alvidrar, como aconteceu. A mim horrorisou-me vel-os deslisar ao longo d'esse rochedo empinado, que mergulha no mar; a cada momento me parecia que os pés ou as mãos lhes faltariam, e que, n'um abrir e fechar d'olhos, elles desappareceriam entre a espuma das ondas, que ali se despedaçam com estrondo.
Tambem fomos vêr o Fojo, esse grande funil de rocha bruta, que communica com o mar, cujo estampido sinistro exerce em nós uma estranha influencia de repulsão.
Foi bello todo esse passeio através de uma região encantadora, onde ninguem nos incommodava n'aquella occasião, e onde insensivelmente tudo haviamos esquecido de quanto nos pudesse n'este mundo dar cuidado ou desgosto.
—O tolo do Leotte perdeu isto!
—O que térá elle feito?!{43}
Soubemol-o depois, quando recolhemos ao Victor, noite fechada.
—Foi um achado! exclamou elle, mal que nos viu.
—Então?