Este acontecimento causou certa sensação entre os hospedes do Hotel do Padre, visto não haver acontecimentos de maior polpa.
—Quem será isto? perguntava-se.
—É um principe! dizia ironicamente um janota de Guimarães.
—Um principe e uma princeza, acrescentava do lado um banqueiro portuense.
—Com os respectivos veadores e damas, observou bonacheironamente o padre José Maria, que possuia uma graça simples, quasi patriarchal, e que era um dos hospedes mais estimados no hotel.
Depois, emquanto a sombra caía das arvores, todos continuaram conversando, lendo, jogando, flirtando.
Á hora do jantar, a princeza e o principe foram vistos já sentados á cabeceira da mesa, silenciosos e graves. Os seus dois criados, de casaca, postados por detrás da cadeira do principe{46} e da princeza, conservavam-se immoveis como estatuas.
Todos os outros hospedes, que iam chegando, trocavam entre si sorrisos, olhares de intelligencia. Padre José Maria arregalou os olhos, franziu o beiço, sentou-se. As senhoras diziam segredos umas ás outras. Os homens, de vez em quando, arriscavam em voz alta uma allusão disfarçada.
Findo o jantar, o principe e a princeza levantaram-se; os seus dois criados, muito direitos, arrastaram-lhes as cadeiras. Não cumprimentaram ninguem.
Então a galhofa expludiu, os epigrammas estalaram. Padre José Maria teve pilhas de graça. Um hospede aventou a idéa de que se pedisse o registo do hotel para saber-se o nome do recem-chegado. Veio o registo. Dizia simplesmente isto: Commendador Piratinino e sua esposa.