—Então é Maria, e chama-se Rosa?
—Essa pergunta fiz eu a mim proprio. Mas{44} ella, de relance, percebendo a minha surprêsa, explicou que Rosa era o seu nome de guerra, e D. Maria de Alarcão o seu nome de familia.
—Eis o que tu apuraste em todo o dia!
—E já não foi pouco. Talvez que vocês tenham achado muitas criadas cujos avós fossem gentis guerreiros!...
—Para isto, exclamou o Vasconcellos, deixou este tolo de ir passear a Collares!
—Estou vendo, disse eu, que a tua Rosa é tanto Alarcão como era principe aquelle heroe, da historia que sabe o Athayde, que appareceu nas Caldas de Vizella.
—É verdade! quero ouvir a historia do Athayde, observou imperativamente o Vasconcellos. Meus senhores, está aberto o Decameron.
O Athayde fez-se algum tanto rogado, mas contou:
—Era um domingo calmoso de agosto. Todos os hospedes do Hotel do Padre, nas Caldas de Vizella, estavam sentados á sombra do parque do hotel, conversando, lendo, jogando, flirtando. Nenhum d'elles ousára ir á estação esperar o comboio. Os passarinhos, se não pudessem encontrar um doce refugio nas arvores marginaes do rio Vizella, cairiam do ceu assados e depennados. Com uma soalheira d'aquellas, não havia nada que apetecesse tanto como o descanso e a sombra.
De repente ouviu-se o silvo da locomotiva.—Lá{45} chegou o comboio!—Pois deixal-o chegar!—Quem vier, cá virá ter. Vinte minutos depois, paravam á porta do hotel duas americanas, poeirentas e escanceladas. E um sujeito de fato de flanella branca, chapeu branco, acompanhado por uma senhora da sua idade—vinte e quatro a vinte e cinco annos—, atravessou olympicamente o parque do hotel sem cumprimentar ninguem. Da segunda carruagem apearam-se duas criadas e dois criados, com pequenas malas na mão.