—Magnifico!
—Maravilhoso!
Ficou tratado que Piratinino era o principe da Ribária, e que a Ribária ficava nos Balkans. Dois minutos depois, fazia-se a revelação aos criados, pedindo-lhes a maxima reserva, para não comprometter o incognito do principe. Quatro minutos depois os criados tinham revelado o segredo ás criadas do hotel e, passada uma hora, constava em toda Vizella que no Hotel do Padre estava hospedado um principe estrangeiro muito rico. Á noite, em todos os circulos de conversação, acrescentava-se: Fabulosamente rico. E sabia-se já em toda a villa que, depois do principe, havia chegado uma carroça com bagagens, suspeitando-se que a maior parte das malas traziam joias da princeza, porque um terceiro criado as vinha guardando como o dragão de cem cabeças guardava{48} os pomos de ouro do jardim das Hespérides. Diziam alguns, com uma certeza convicta, que na Ribária havia minas de metaes preciosos, e outros, por inculcarem sciencia ou por espirito de hyperbole, acrescentavam que no principado da Ribária jámais houvera deficit.
Corria tudo ás mil maravilhas.
N'essa tarde, os principes não saíram a passeio, e d'este modo lográram inconscientemente a justa curiosidade do povo de Vizella, que se tinha agglomerado nas vizinhanças do hotel. Mas no dia seguinte pela manhã suas altezas foram tomar o seu banho á Lameira, o povo pôde vêl-os, contemplal-os, os pobres filaram-n'os, os curiosos seguiram-n'os, e o principe, voltando-se para trás, disse a um dos criados que désse esmolas aos pobres e ás creanças. O criado distribuiu para cima de dezoito vintens em cobre. Por um tris que o principe e o criado não apanharam vivas. Mas desde aquella hora, toda a gente, incluindo os hospedes que tinham inventado a blague, ficou capacitada de que Piratinino era realmente um principe.
Suas altezas saíram de tarde a passeio. Os hospedes do Hotel do Padre esforçavam-se a explicar que na Ribária a etiqueta era muito rigorosa, e que o principe não podia saudar senão os fidalgos do seu paiz. Foi preciso inventar isto, porque o povo de Vizella, que tinha visto uma vez em Guimarães el-rei D. Luiz cumprimentar{49} toda a gente, estranhava o facto. Em compensação, todos os populares cumprimentavam suas altezas, e eu pendo a acreditar que o proprio Piratinino se ia sentindo principe... cada vez mais.
A coisa constou. Vieram pobres de Guimarães, de Negrellos, de Santo Thyrso, de modo que foi preciso, no hotel, prohibir-lhes a entrada no parque. Mas elles, illudindo a ordem, penduravam-se das arvores, para serem os primeiros a lobrigar e a assaltar sua alteza o principe da Ribária. De cada vez que saía, o excelso principe tinha uma despêsa obrigada, de dezoito vintens pelo menos. E os hospedes do hotel saboreavam em segredo, n'uma risota permanente, o bom exito da sua invenção.
Um dia o criado do principe pediu informações aos criados do hotel sobre a navegabilidade do rio Vizella. Aquelle a quem a pergunta fôra feita veio, com a melhor boa fé d'este mundo, dizer aos hospedes que sua alteza ia n'aquella tarde para o rio.
—Para o rio! exclamaram os hospedes. E padre José Maria observou do lado:
—Para o Rio... de Janeiro, talvez. O principe sente-se arruinado pela mendicidade das Caldas de Vizella e seus arredores. Vai talvez restaurar a fortuna.