Mas o criado explicou: Que não. Que o principe tinha dinheiro como milho. Que ia mas era para{50} o meio do Vizella divertir-se com um barco que trouxera.

—Onde está o barco? perguntaram.

—Está dentro de uma grande mala, que veio na carroça.

Com effeito, um dos criados do principe chamou um homem, que foi ao hotel buscar a mala grande, e dirigiu-se com elle para a beira do Vizella. Pouco depois saiu o principe, todo vestido de branco, sua toilette favorita, pelo que já algumas pessoas lhe chamavam—o principe branco.

Deu-se rebate no hotel, e todos os hospedes, repartidos em diversos grupos, se encaminharam para as margens do Vizella, seguindo uns pela Lameira, outros pelo Mourisco.

O boato saíra verdadeiro. O principe estava effectivamente no meio do Vizella, pescando á linha dentro de um barco de lona, um pouco similhante áquelle, se bem que mais pequeno, em que o general Caula atravessou o Tejo n'uma experiencia feita em agosto de 1874. Na margem ficára o criado, e a mala cuja tampa estava levantada, aberta. Comprehende-se que um principe não permittisse ao criado a honra de tomar assento a seu lado dentro do mesmo barco. Já sabemos que na Ribária a etiqueta é muito rigorosa.

Toda a população de Vizella, a fluctuante e a permanente, pôde saciar seus olhos curiosos na contemplação d'esse quadro inteiramente novo ali: um principe estrangeiro pescando á linha{51} dentro de um barco de lona. Só os hospedes do Hotel do Padre se riam, porque os do Cruzeiro do Sul, que não estavam na confidencia, e os bons populares ingenuos tomavam o caso muito a serio, e contemplavam encantados o principe branco pescando.

Escusado será dizer que sua alteza não pescou coisa nenhuma. Quem pesca são os pescadores, porque teem obrigação d'isso. Os principes divertem-se, e enfadam-se.

Foi o que aconteceu a sua alteza, porque, naturalmente enfastiado, quiz abicar a terra. Mas o barco começou a rodopiar, a oscillar, e o principe, já um pouco impaciente, redobrava de esforços, de pressão.

Toda a gente sabe com que facilidade, n'estas condições, se volta um barco. Foi o que aconteceu ao do principe. Sua alteza fizera um movimento menos cauteloso, e o barco tombou. Era um vez um principe n'um charco.