—Irra! que é longe! Mas dize lá.{58}
—Vinte e quatro annos. Formas redondas, linhas esculpturaes, frescura, belleza, mocidade. Uma alface, que a gente tem vontade de trincar, para refrescar-se.
—Já o sabes?
—Suspeito-o, pelo que vejo. Mas tenho aqui um bilhete de apresentação para nós ambos.
—Bravo! excellente! Lá iremos...
E á noite, das nove para as dez horas, os dois velhinhos passaram por entre filas de lojas illuminadas, desceram honestamente o Chiado sem olhar para as estrellas cadentes, que lhes davam encontrões, tão honestamente como se fossem á Baixa comprar bolos moles para as esposas desdentadas.
Muita gente os cumprimentava, e elles correspondiam ao cumprimento com a gravidade austera de duas pessoas idosas que fossem caminhando para um lausperenne.
Mas, lá por dentro, no que elles pensavam era no alto da Penha: uma casinha de um andar, menos mal alfaiada, com rotulas verdes no rez-de-chaussée.
E n'um passinho curto, mas rendoso, atravessaram a Baixa, passando honestamente por entre filas de lojas illuminadas, foram andando, andando, ganhando o largo do Intendente, galgando para Arroyos, sempre a rir lá por dentro—eh! eh!—até que começaram a marinhar lentamente pelo Caracol da Penha, aonde o perfume do prazer{59} lhes parecia chegar já, como o bom cheiro de uma cozinha, que se sente ao longe. Chegaram ao alto da Penha.
—É ali, disse um.