—Ah! A morte do bibliophilo? Pois vae, e ámanhã o lerás.
Ia eu para deitar-me, quando o Leotte, muito intrigado ainda com a historia de D. Maria de Alarcão, entrou no meu quarto, procurando certificar-me de que, para desenvencilhar mysterios de mulheres, tinha elle faro como ninguem. Que eu veria; que ou a rapariga tinha falado com sinceridade ou que elle era um grande tolo, do que não estava convencido.
Depois pegou a contar casos do seu tempo de Coimbra, memorias de condiscipulos e já eu tinha perdido o somno quando elle abordou a historia do seu condiscipulo Barcellos.{61}
—Quem era esse? perguntei.
Como lhe dei trella, foi um gosto ouvil-o.
Barcellos, o grande, passou quasi desconhecido fóra de Coimbra, onde se doutorou, e fóra de Salvaterra de Magos, onde nasceu.
Bohemio e improvisador como Bocage, fez a sua lenda em Coimbra, no meio de uma sociedade de rapazes em que a falta de talento era tida como rarissima falha de toque denunciada na contrastaria intellectual da Universidade. Na terra dos cegos, quem tiver um olho é rei. Mas o Barcellos galgou ao primeiro premio e ao primeiro logar através de uma basta legião de sujeitos em que os anonymos eram pequenissima excepção.
O Barcellos apenas differia de Bocage em não reproduzir pela escripta as suas composições. Falou; toda a sua vida se foi n'isso: falar. Teve improvisos felicissimos, extraordinarios, principalmente em prosa. Verba volant. Os seus discursos não foram fixados pela stenographia. Não são conhecidos no paiz. Mas aquelles que lh'os ouviram, jámais poderão esquecel-os.
De copo em punho, a graça, a verbosidade, a satyra e a anecdota emergiam da onda rubra do Bairrada como Venus do seio da vaga azul do oceano. Uma belleza! um primor!
A Universidade quiz doutoral-o. Elle respondeu que em Salvaterra de Magos um capello era a insignia mais inutil d'este mundo. Redarguiram-lhe{62} que um capello equivalia a uma cathedra. Lá isso não! elle só tinha geito para ser estudante, respondeu. Visto que deixava de ser estudante, iria para Salvaterra annullar-se. Mas a Universidade teimou em dar-lhe o annel de doutor. Elle enfiou-o no dedo, e tratou de annullar-se em Salvaterra.