Metteu-se em casa. Saía da cama para ir jantar, e ás oito horas da noite, de charuto ao canto da bocca, apparecia na botica, que o esperava com interesse. Tomava a palavra, monopolisando-a, logo que lhe lembrassem um assumpto, qualquer que fosse.

Falou-se uma noite da intelligencia dos cães. Um caçador da localidade contou, como quem lança á terra uma semente para que se reproduza, a historia de uma perdigueira, que tinha a idolatria da caça. Em passando um caçador de arma ás costas, ainda que lhe fosse desconhecido, a perdigueira seguia-o. Em ouvindo assobiar, punha-se de orelha fita, e partia. Era um estranho que a chamava? Não se lhe dava d'isso: acompanhava-o. O seu gosto, o seu enthusiasmo era a caça. O caçador disparava o primeiro tiro. Acertava? caía uma perdiz? A perdigueira pulava de contente, estava alegre e interessada para todo o dia. Falhava o tiro? A perdigueira começava a olhar desconfiada para o caçador. Falhava um segundo tiro? A perdigueira amuava, aborrecia-se. Mas se o terceiro tiro falhava, a perdigueira{63} desandava para casa, abandonando o caçador.

O grande Barcellos ouvia sorrindo, aquecendo, vibrando, como Bocage nos mais felizes raptos da improvisação. Lançado o assumpto, apanhava-o no ar, senhoreava-o, fréchava-o de glosas em que a imaginação refervia torrencial.

—Não me admiro, disséra n'essa noite o Barcellos, erguendo-se e passeando, muito peripoletico e muito jovial. Eu lhes conto o que me aconteceu em Coimbra, a proposito da intelligencia dos cães. Era no meu sexto anno. Estava-me preparando para defender theses. Uma estopada que a Universidade me metteu pela porta dentro! Recolhia uma noite para casa, na rua do Correio, paredes meias do predio onde o Mata-frades nasceu. Á esquina da Sé Velha, oiço ganir dolorosamente um canito na escuridade. Aproximo-me, curvo-me...

E, de cocoras, elle representava, como um actor consummado, a sua narrativa.

—Encontro effectivamente um cão, um pequeno cão vadio, um desherdado da fortuna, com uma perna partida. Pobre animal! Levanto-o cautelosamente, chego-me a um candeeiro, examino a fractura. Sinto na minha alma esse generoso impulso de caridade que todo o racional completo sente pelo irracional incompleto. A gente ri-se ás vezes de um homem coxo: mas sente-se abalado perante um cão que anda de perna no ar. São segredos{64} da nossa incomprehensivel natureza, que difficultam o principio theorico da fraternidade universal. Entro em casa, deponho delicadamente o canito sobre a minha cama. Vou á estante. Tiro o primeiro livro encadernado em que puz os dedos. Era um Michelet. Deixal-o ser. Tanto melhor! Um philosopho humanitario estava a calhar para uma acção meritoria. Rasgo a encadernação. Corto-a em tiras, e applico as talas á perna quebrada. Ligo-a. Ponho o cão sobre uma cadeira, cubro-o com a minha capa de estudante. Deito-me. Adormeço.

O grande Barcellos accendeu outro charuto, afastou do pescoço o seu alto collarinho engommado, e proseguiu:

—Ao cabo de vinte dias de tratamento, a fractura tinha solidificado. Tiro ao cão o apparelho cirurgico, e elle, sem lamber a mão que o havia beneficiado, rompe pela porta fóra, desce a escada, safa-se pela rua abaixo de rabo caído. A ingratidão dos cães! meditei eu. Nem um olhar, nem uma caricia, uma demonstração qualquer de agradecimento! Fosse um homem, e abraçar-me-ia. Fosse uma mulher, e beijar-me-ia. Era um cão: safou-se como quem era. Ah! meus amigos, que errado juizo este! Cerca de dez dias depois, estava eu, de papo para o ar, lendo uma d'aquellas coisas que a gente só lê em Coimbra: um doutor. Um doutor que tem escripto é a praga maior que se conhece. Sinto arranhar na porta do quarto:{65} primeira vez, segunda vez, terceira vez. É um gato! disse eu. Atirei fóra o doutor, saltei da cama, pego no meu bastão da noite e abro a porta disposto a enxotar o gato impertinente. Sabem os srs. quem era? Era o meu cão da perna partida, são como um pêro. Mas trazia outro, trazia outro cão, que tambem quebrára uma perna. Achei-lhe graça. «Com que então, disse eu voltando-me para o ingrato canito de que tão cuidadosamente havia tratado, tu pensas que isto aqui é casa de algebista? Achas mais barato do que ir ao endireita? Abriste conta corrente comigo? Mas quando pagas tu, refinadissimo tratante? Safaste-te á franceza: nem uma, nem duas! e trazes-me agora um amigalhote coxo para que eu o concerte?» E o meu cão crivava o seu vivacissimo olhar em mim, como a perguntar-me se eu entendia o sentido da sua visita. O outro, de perna no ar e focinho no chão, esperava pela consulta. «Mas no fim de contas, disse eu, tu tens ao menos uma qualidade nobre: és amigo do teu amigo. Elle quebrou uma perna, é teu parceiro na bohemia, sabes que eu concerto pernas, e vieste cá. Pois vamos lá a isso, meu ingrato de uma figa.» Tiro outro livro da estante, e ponho duas talas de papelão na fractura do canito. Deito-o sobre uma cadeira, mando-lhe dar de comer, mas emquanto espero que a servente traga umas sopas, o introductor safa-se pela escada abaixo. Não está má esta! reflexiono. Com que então isto é chegar, vêr e vencer! Mas... mas{66} pensei que talvez um sentimento de delicadeza obrigasse o meu cão a retirar-se: quereria porventura poupar-me ao sacrificio de sustentar dois hospedes. Seria ou não seria. No dia seguinte vejo-o entrar de repente. Põe-se do chão a olhar para o outro, que estava na cadeira, certifica-se de que elle tem as talas, de que está em tratamento, de que eu sou um endireita acabado e um philantropo inexgotavel. Sái. Durante oito dias ninguem o vê mais, talvez para me significar que confiava plenamente na minha cirurgia. Ao nono dia volta a visitar o amigo. Olha para elle, parece dizer-lhe com os olhos—Isso vae bem—e raspa-se. O curativo chegou a seu termo, e o meu cão nunca mais voltou. Levantei o apparelho com a mestria que dá a pratica. Lembrei-me até de abrir um consultorio para cães; mas tive receio de que a faculdade de medicina me fizesse instaurar processo, visto que eu só podia abrir consultorio para demandistas. O cão safou-se como o outro, sem um olhar, uma caricia, uma qualquer manifestação de agradecimento.

—E nunca mais os viu? perguntaram ao grande Barcellos.

—Lá vamos, respondeu elle. Fiz exame de licenciado, defendi theses, tomei capello. Dia cheio na Universidade, o do capello. Puz na cabeça uma borla doutoral, e recebi auctorisação solemne para acrescentar ao meu nome mais seis lettras. A Universidade confirmou o tratamento que a minha{67} servente me dava desde o primeiro anno. Abraços dos lentes e de toda a mais doutorança; abraços dos estudantes, abraços dos archeiros. A propria Cabra parecia dizer-me: Se eu pudesse descer, mettia-te os tampos dentro. Vou a casa para descansar do capello, emquanto n'um hotel da baixa se prepara o jantar do doutoramento. Desço até á Sé Velha, entro na rua do Correio, aproximo-me de casa e vejo á minha porta, cada um de seu lado, os dois cães que eu concertei, e que me iam dar os parabens! Aqui teem os senhores o que é a intelligencia do cão.