E um fumosinho de vaidade passava no seu espirito, cegando-lhe o entendimento.

No Terreiro do Paço, como o segundo trem viesse sempre na piugada do primeiro, Leopoldo Ambrosio quiz desenganar-se, e ordenou por isso ao cocheiro que dissesse ao do segundo trem que passasse adeante.

As duas carruagens, como já contei, pararam quasi ao mesmo tempo.

E como o cocheiro do segundo trem não obedecesse ao convite que lhe fazia o do primeiro trem, Leopoldo Ambrosio mais se convenceu de que era effectivamente a dama que o seguia.

Então, todo ancho d'essa estranha aventura, em que elle parecia ser o galanteado, deixou-se conduzir ao longo do Aterro, sonhando sonhos côr de rosa na escuridão de uma noite negra.

E não fazia senão espreitar pelo oculo da carruagem{88} a vêr se a dama mysteriosa e distincta continuava a seguil-o.

O seu trem subiu a rua de S. João da Matta e chegou, finalmente, á da Santissima Trindade. Parou no numero que elle havia indicado ao cocheiro e que era o da sua residencia.

N'isto o outro trem pára logo.

—O que! exclama Leopoldo Ambrosio. Então ella pára tambem! Apea-se! Vae talvez cair-me nos braços, dizendo n'uma grande allucinação de amor: «Segui-te, porque quero ser tua!»

Tirou a mala para fóra do trem; que não fosse esquecer-lhe na anciedade febril d'essa proxima explosão de amor.