Se fôsse em Portugal, dizia eu com os meus botões, estas duas meninas, ambas de uma mocidade estonteadora, viriam aqui esmagadas pela auctoridade dictatorial do unico homem que as acompanha; não diriam palavra ou responderiam com simples monosyllabos, muito acanhadas e muito hesitantes, ás minhas perguntas.
Mr. Bourgoin, a ser portuguez, encarregar-se-ia, algum tanto constrangido, de fazer todas as despesas da conversação, visto ter a infelicidade de haver encontrado, contra os estilos do nosso paiz, um companheiro de viagem tagarella.
Madame Bourgoin tão depressa estimulava as esperanças do marido na cura radical do seu rheumatismo, adiada de anno para anno, como se intromettia na conversação da irmã, e da outra, lembrando a belleza do Lac Bleu, espelhado de aguas limpidas, e contornado de ruinas, dando assim a entender que, superior á prosa do rheumatismo conjugal, pairava no seu espirito a poesia dos lagos...
Perguntaram-me as duas amigas se eu me demoraria muito em Cauterets.{95}
Respondi que não havia nada tão incerto para um homem de boa saude como saber quando a sua doença o abandonaria.
As duas francezas riram longo tempo, comprehendendo, com a sua fina intuição gauleza, que eu principiava a estar indeciso, no meu pé de alferes, entre uma e outra.
Se viajassemos em Portugal, era certo, certissimo, que começariam a ter ciumes, a mostrar-se reservadas, um poucochinho azedas, porque uma portugueza não comprehende facilmente que um homem possa estar ao mesmo tempo namorado de duas mulheres.
Portugal, a despeito do feliz systema que nos rege, como dizia o Garrett, é, pela tradição, um paiz absolutista... até no amor.
Uma das francezas, M.elle Suzanne, lembrou-me a conveniencia de encontrar qualquer doença ligeira que me obrigasse a demorar-me um pouco mais em Cauterets do que a saude.
M.elle Denise foi de parecer que todo o fumista deve soffrer mais ou menos da garganta.