Fiz-lhe namoro durante mez e meio, até ao fim de setembro. Depois, vesti a minha casaca, puz a minha gravata branca, e fui pedil-a á mãe, que teria quarenta annos, e uma carnação sadia, que não conseguira perder, sem embargo de tomar as aguas de Cauterets todos os annos. Parece incrivel!

O conde descruzou as pernas, accendeu de novo{98} o charuto, e, batendo uma palmada com a mão esquerda sobre a perna, disse-me:

—Fui muito feliz aquelle anno em Cauterets. Imagine que de uma vez combinei com dois portuguezes, que lá estavam, com oito francezes, um allemão e uma ingleza velha, fazermos uma excursão ao Pico de Balaïtous. Partimos de madrugada. Na vespera á noite a nossa excursão annunciara-se no Casino, fizera sensação; a noticia correra todos os grupos.

Ao nascer do sol—uma manhã deliciosa dos Pyrineus—quando cheguei á porta do hotel, fiquei encantado de encontrar á janella, esperando por mim, para me verem partir, todos os meus namoros de Cauterets. Tinham madrugado sobreposse para me enviar, nas azas d'um sorriso, o seu adeus. Eu sentia-me feliz, ufano. Imagine que só n'uma das janellas estavam duas mulheres, impulsionadas pelo mesmo pensamento: o de me verem partir! Uma d'essas mulheres foi d'ahi a tres mezes minha noiva.

—E a outra? perguntei eu.

—A outra? repetiu o conde com o seu habitual sorriso levemente malicioso. A outra era minha sogra.

Todos nós conheciamos o conde, o seu genio alegre, o seu viver mundano, os seus ditos de espirito, a que muitas vezes sacrificava as conveniencias sociaes, as suas proprias conveniencias até; de modo que nos foi muito agradavel ouvir{99} mais uma vez a historia do seu casamento com o sabor picante que elle proprio lhe dava, quando, sem poupar a sogra, não punha duvida em contal-a.

O Gonçallinho Jervis, que tambem era amigo do conde, havia-se levantado, emquanto o Leotte falava, e encostára-se ao vão de uma janella olhando para fóra.

Démos por isso.

—O que estás tu ahi fazendo?