—Que bello luar! exclamou elle. Que bella noite de primavera para irmos ouvir os rouxinoes!
—Não seja piegas, atalhou o Vasconcellos. Que bella hora para a gente ir deitar-se!...{100}
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X
Era certo que tinhamos ido a Cintra com o pretexto de ouvir os rouxinoes. Mas era certo tambem que nenhum de nós, com excepção do Gonçallinho Jervis, estava já n'esse periodo agudo de romanticismo, que exalta allucinadamente a imaginação.
Parariamos de boa vontade para ouvir um rouxinol, que nos houvesse surprehendido no caminho. Mas ser-nos-ia pesado qualquer incommodo que, a não ser por surpresa, isso nos pudesse custar.
O que principalmente nós quizemos gozar indo a Cintra, era a liberdade, o descanso, que não tinhamos habitualmente. O projecto de ouvir os rouxinoes lisonjeára por momentos a vaga saudade, que todos alimentavamos, dos annos felizes da vida, passados na provincia. Mas, uma vez postos a caminho, a doce liberdade, que principiamos{102} a saborear, bem depressa nos fez esquecer dos rouxinoes, que não pensamos mais em ouvir.
Só o Gonçallinho Jervis não podia tão facilmente esquecel-os como nós outros. A idade desculpava-o. Estava ainda na sezão da poesia, era uma alma em ebulição, um coração em flôr, via os rouxinoes através do prisma da lenda que tinha talvez lido em Bernardim Ribeiro, frei Luiz de Sousa e outros poetas da prosa ou do verso.
Todos nós, mais ou menos, haviamos passado por isso.
Todos nós haviamos tido uma quadra da vida em que nos impressionára o caso do rouxinol de Bernardim Ribeiro, que morre de cansaço cantando.