«Não tardou muito—diz a novella—que, estando eu assim cuidando, sobre um verde ramo que por cima da agua se estendia, se veio poisar um rouxinol; e começou a cantar tão docemente, que de todo me levou após si o meu sentido de ouvir.
«E elle cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que, como cansado, queria acabar, senão quando tornava, como que começava então.
«Triste da avesinha, que, estando-se assim queixando, não sei como se cahiu morta sobre aquella agua. Cahindo por entre as ramas, muitas folhas cahiram tambem com ella.»
Na idade do Gonçallinho Jervis, toda a alma é{103} pouco mais ou menos como o rouxinol da novella: esgota-se cantando.
Eu não sei se seriam rouxinoes as aves que na cêrca do convento de Bemfica provocaram a desafio os homens, chegando uma d'ellas a morrer extenuada.
«Assim nos tempos que a natureza esperta as linguas das aves, a louvar com mais harmonia o Creador, é quasi morada continua (a cêrca) das que por mais musicas são conhecidas. E é tradição, que juntando-se n'ella uns seculares de boas vozes, e começando a cantar ao som de instrumentos bem accordados, acudiram as que se tinham por senhoras do sitio, a desafiar a melodia humana, e artificial, com a sua natural. E isto com tamanha porfia, que vencidas as vozes dos homens não cansaram as pobres avesinhas de seguir as violas que ficaram supprindo por ellas; e uma se deixou levar tanto do impeto, e affecto de cantar, que veio a desfallecer, e á vista de todos cahiu em terra sem alento, como dizendo, que antes queria perder o bem da vida, que a honra de perseverar cantando.»
Deviam, effectivamente, ser rouxinoes, porque frei Luiz de Sousa se refere ás que por mais musicas são conhecidas, e o rouxinol é, no mundo alado da Europa, o cantor por excellencia.
Na idade do Gonçallinho Jervis, se uma alma responde á nossa n'um duetto de encantador lyrismo, pouco se nos dá de perder a vida comtanto{104} que possamos morrer exhalando a alma n'um cantico.
Eu proprio já havia prestado tambem o meu culto aos rouxinoes, principalmente ao de Bernardim Ribeiro. Aos dezoito annos—Deus me perdoe!—compuz um poema cuja heroina
Acabára, cantando, o captiveiro
Tal como é fama ter acontecido
Ao rouxinol de Bernardim Ribeiro!