Mas, no anno em que fômos a Cintra, já propendia a estimar mais as perdizes do que os rouxinoes, sobretudo se as perdizes eram temperadas com molho de villão.

Um bom petisco!

O Gonçallinho Jervis, felizmente para elle, amava tanto os rouxinoes como poeta que era, que até sabia a lenda mythologica d'aquella princeza que por suas desventuras fôra convertida em philomela, nome que os antigos deram ao rouxinol.

Eu tinha só uma vaga ideia d'essa lenda pagã por a haver lido na Arte da caça da altenaria, composta por Diogo Fernandes Ferreira.

«Contam as fabulas que Tereo, filho de Marte e de Bistonida, sendo rei de Thracia, casou com Progne, filha d'el-rei d'Athenas, e a trouxe para o seu reino. N'ella houve um filho lindissimo, a que chamavam Itêns, tão desejado no reino, que o dia que nasceu se festejava como festa solemne.{105} Teve a rainha Progne saudade de vêr a sua irmã Filomena: pediu ao marido licença para a ir vêr, ou fôsse elle em pessoa para a trazer, que seu pae e mãe lhe concederiam licença para a irmã vir. Tereo aprestou naus, partiu, chegou a salvamento, foi bem recebido dos sogros, rei e rainha e da cunhada Filomena, a qual, em Tereo a vendo, se incendeu de amores por sua formosura. Então com mais efficazes palavras pediu aos paes lhe dessem a licença que pretendia. Fez-se-lhe a vontade. Embarcados, vieram a salvamento, e, chegados a um porto do reino de Tereo, sahiram em terra elle e a cunhada, dizendo elle que o fazia para n'aquella floresta descansar do trabalho do mar. E sendo longe das naus e gente, não tanto como o elle estava da virtude, trabalhou por persuadir a cunhada áquelle intento que desejava; e vendo que nenhumas promessas nem palavras bastavam para ella consentir em seu desejo, acolheu-se á força e com ella, muito contra vontade da afflicta princeza, de donzella a tornou dona. Queixando-se ella a Deus e ao mundo de tão grande maldade, que havia de ser pregoeira de tamanha villeza e traição, e se havia de tomar vingança de tal aleivosia, ordenou elle outra maior maldade arrancando-lhe a lingua, e assim a levou a casa de um criado seu e vassallo, não lhe declarando o caso. Aos das naus disse que as feras a mataram, e chegando a sua casa se fizeram muitas mostras de tristeza pela morte fingida da{106} cunhada, a qual, estando em poder do vassallo de Tereo, pediu por acenos lhe dessem hollanda e seda de côres, que queria entreter-se. Trazida, em letras gregas conta á irmã o caso, e por acenos rogou a uma mulher levasse aquella toalha assim lavrada á rainha Progne, que lhe havia de ser bem pago o trabalho que n'isso tomasse. Dada a toalha á rainha, sabida a historia, dissimulou. N'aquelle tempo se faziam umas festas que de tres annos se celebravam n'aquelle reino. Disse Progne ao marido que desejava ir a ellas. Ida, foi aonde a irmã estava, a qual achou privada da lingua e falla, e assim a trouxe para sua casa em trajo demudado. Ambas determinaram a vingança do marido bem extraordinaria, e foi que tomaram Itêns, o principe filho de entre ambos, e lhe cortaram a cabeça, pés e mãos, e do corpo mandaram fazer manjares differentes. E tendo isto ordenado, pediu Progne ao marido lhe concedesse jantarem ambos, ao modo dos reis de sua terra, que era comerem sós. Foi-lhe feita a vontade. Partiu Tereo os manjares e guizados feitos do corpo do filho; depois de comer d'elles, pediu á mulher lhe mandasse vir o principe Itêns, seu filho, que elle muito amava. Então sahiu Filomena de uma camara com a cabeça, as mãos e os pés do filho, desejando ter lingua para mostrar a ira que contra elle tinha. Tereo, vendo o caso, deu com a mesa em terra, e lançou mão á espada. Ellas fugiram, Progne convertida em andorinha, e Filomena{107} em rouxinol; Itêns em avião, e Tereo em poupa.»

Esta fabula, copiada dos poetas pagãos, fazia trasbordar de poesia a alma do Gonçallinho Jervis, que julgava ouvir na voz do rouxinol toda a colera tragica da princeza Filomena, a qual princeza, convertida em ave canora, parecia vingar-se eternamente da falta que no seu tempo lhe fizera a lingua, cortada pelo cunhado.

Gonçallinho ia na esteira de Camões, que dizia nos Lusiadas:

Ao longo da agua o niveo cysne canta,
Responde-lhe do ramo philomela.

Na varzea de Collares não faltavam agua, verdura, rouxinoes. Por isso elle tanto desejava que, soltando a sua voz de cysne de frak (certamente mais melodiosa do que aquella de que os cysnes podem dispôr) lhe respondesse de um ramo a princeza atheniense, convertida em rouxinol.

Diogo Fernandes Ferreira explica a razão por que as quatro personagens da lenda foram metamorphoseadas n'aquellas aves.