«Ordenou o poeta esta fabula de vêr que o rouxinol quasi não tem lingua, e a andorinha ser vestida de preto, e no peito ter umas nodoas vermelhas, e ter o canto triste, como que conta a historia da maldade do marido, e as pennas rôxas como sangue da crueldade que teve em matar o{108} filho em vingança da irmã. E do canto do rouxinol a saudade com que viveu a vida a forçada Filomena, e do avião porque no seu canto parece que grita como menino, e na poupa pela significação da corôa da cabeça, e na formusura das pennas pintadas de que se vestem finge ser el-rei, porque a poupa, tomada na mão, tem mau cheiro, e o ninho d'ella o mesmo: em que se dá a entender que os maus feitos, ainda que sejam commettidos por reis e pessoas graves, se ha de fugir d'elles e virar-lhes o rosto, como coisa abominavel e fedorenta.»

Este processo da moralidade pelo fedor não deixa de ser convincente.

Disse isto uma vez ao Gonçallinho. E elle, muito despeitado, chamou-me barbaro.{109}

XII

No dia seguinte, quando recolhemos para jantar, soubemos pelo Leotte, que tinha ficado de atalaia, tudo o que se passára com relação á chegada dos dois novos hospedes—o brazileiro e a mulher.

Não era o nosso amigo Leotte homem que, em se tratando de uma mulher, curasse por informações. Queria vêr a brazileira: ficou.

—Já não é nova—disse-nos elle—mas considero-a ainda acirrante. Dou-lhe quarenta annos, pouco mais, e está menos mal conservada. Bonitos olhos, bons dentes, cabello magnifico. Reforçada de carnes, sem se poder dizer nutrida. Mulher capaz de satisfazer o ideal de um brazileiro, que a idade principia a tornar decadente. Disse-me a Rosa, que está de serviço á brazileira, que elles irão jantar á mesa redonda.

—Estás n'um sino, Leotte! Pois bem! Veremos isso.{110}

Quando chegamos á mesa, contamos onze talheres. A informação fornecida pela Rosa era, pois, exacta. D'ahi a pouco tempo, o brazileiro e a mulher entraram.

O Leotte descrevera com exactidão e verdade o typo da brazileira. Era, effectivamente, o que se costuma chamar—umas bellas ruinas. Não dessas ruinas brutalmente realisadas por um cataclismo, que não deixa pedra sobre pedra; mas as que o tempo lentamente costuma ir augmentando e dulcificando com um vago perfume de poesia do passado.