Nos olhos da brazileira, principalmente, brilhavam uns como lampejos de formoso occaso de outono. A noite negra da velhice, que apaga o clarão das pupillas, estava ainda longe. E sentia-se n'essa organisação de mulher, que devia ter sido ardentissima, o que quer que fôsse de rescaldo tepido e demorado de um incendio devorador.

A toilette era distincta, gentil, sem ser severa nem petulante. Denunciava um velho habito de vestir com esmero. O unico defeito que se poderia notar era um certo excesso de pó de arroz nas mãos e de anneis nos dedos.

O brazileiro principiava a resvalar pelo plano inclinado da velhice cansada. Mas havia na sua face um reflexo de bondade credula, de alma sincera, capaz de um sacrifício nobre e de um acto de generosidade fidalga.{111}

No momento de entrar na casa de jantar, percebeu-se que o contrariou achar-se com sua mulher no meio de uma sociedade de homens. Mas a breve trecho o seu sobresalto dissipou-se, reconhecendo que nenhum de nós ignorava o que era jantar em companhia de uma dama.

E a proposito da dama... Cinco minutos depois d'ella se ter sentado á mesa, começou-me a impressionar a sua physionomia, na qual me parecia encontrar feições de uma mulher que eu já vira não sabia quando nem onde.

Por mais que evocasse as minhas recordações, por mais que folheasse esse volumoso livro de biographias que cada pessoa tem archivado no espirito para o consultar de quando em quando, não me era possivel encontrar um nome que correspondesse áquella physionomia: todavia, eu iria jurar que já tinha visto algures a mulher do brasileiro, que a havia encontrado, conversado talvez, mas não sabia, não podia dizer quando isso fosse.

Seria em Lisboa? Não, decerto. Visivelmente haviam decorrido muitos annos, porque, de contrario, a minha memoria não seria tão rebelde.

Na provincia? Aonde? Eis a questão. Vel-a-ia eu no Porto? Tel-a-ia visto em Braga, onde tantas vezes fui passar as férias? No Bom Jesus do Monte, onde, no verão, abundavam os brazileiros em villegiatura? Nas Caldas das Taipas ou{112} de Vizella, que um anno por outro visitei de passagem?

Deus meu! Era certo que eu tinha visto aquella mulher, mas não podia lembrar-me onde nem quando.

Dominado por esta preoccupação, passei todo o jantar. Procurava observar a brasileira sem comtudo offender a susceptibilidade do marido. Elle não repelliu a conversação em que principalmente o Leotte o queria envolver. Disse alguma coisa da sua vida, pouco. Estava doente. Ella falou muito menos do que o marido, mas a sua voz, que conservava ainda vestigios da accentuação das provincias do norte, augmentou a minha preoccupação. Decididamente, eu já tinha ouvido falar aquella mulher.