É sempre com uma certa contrariedade que a esposa d'esse cavalheiro vê todos os dias entrar pela porta dentro mais um novo jornal.

Ella, que para os seus Gracchos quereria amealhar todas as economias do ménage, observa ao marido que já vae sendo excessivo o numero de jornaes que recebem.

Ordinariamente elle responde:

—Que queres, filha? Pediu-me o meu amigo Fulano; não póde deixar de ser. Mas como tudo n'este mundo tem compensações, é mais um que podes mandar vender no fim do mez.

E, accendendo o seu charuto, nunca mais pensa no jornal novo que lhe mandaram, senão quando o cobrador vem receber a importancia da assignatura.

Todas as noites os jornaes d'aquelle dia são arremessados para o fundo de um quarto esconso, d'onde, de tempos a tempos, saem ás braçadas para a tenda vizinha, na rasão de 60 réis o kilo de idéas.

Pobres idéas! Descomposturas da politica, dissertações sociologicas, sueltos mordazes, versos de amor, charadas novissimas, tudo isso, que custou tantas vezes a engendrar, e que teve talvez a sua hora de celebridade, lá vae ser pesado a kilos na balança como a banha de porco, o feijão amarello e a manteiga da terra.{123}

Nenhum respeito, nenhuma consideração por essas pobres idéas! Do papel é que se trata apenas: tanto pesa, quanto vale. O papel impresso tem tambem o seu guano—coisa unica e vil que se lhe póde aproveitar, depois que o pensamento envelheceu.

A facundia do jornalista, a inspiração do poeta, a graça do folhetinista, ficam sendo, desde essa hora, um trapo para embrulho no balcão dos tendeiros.

D'ahi por diante, isto é, da mercearia por diante, é o toicinho que desbanca o artigo de fundo, é a manteiga que supplanta o folhetim. Ceci tuera cela. A gordura afoga a poesia. Nos tempos modernos o trapo é a mortalha do tropo.