Devia ter-se sentido em todo o hotel, quasi solitario, o ruido da nossa chegada. Installamo-nos na sala de visitas, como era costume. D'ahi a pouco, o brazileiro e a mulher entravam na sala.
Madame Araujo tinha feito toilette para o sarau, uma toilette que envergonhava, pelo esplendor{119} elegante, a nossa humilde academia de touristes. Mas um certo excesso de anneis de preço, enfiados nos dedos tambem excessivamente jaspeados de pós de arroz, prejudicava um pouco o bom gosto da toilette.
De mim para comigo dizia eu: «Já vi estas mãos e estes anneis, não sei onde!»
A mulher do brazileiro mostrava-se encantada com a surpresa de um sarau, que a nossa excentricidade, como ella disséra, lhe havia preparado.
O Araujo, muito resignado, parecia dizer com os olhos, explicando a sua presença ali: «Sim, filha, o que tu quizeres».{120}
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XIII
Mettemos á bulha o Saavedra, que tinha sido até esse momento um dos mais silenciosos do grupo, para que se dignasse fazer as honras d'aquella noite, visto como a sua eloquencia devia achar-se ainda em folha, e a nossa já ia estando um pouco fatigada.
O Saavedra tinha certa graça natural, era um espirito observador, mas a sua modestia orçava ás vezes pela timidez. Felizmente pudemos convencel-o a contar uma das suas anecdotas.
—Imaginem v. ex.as, disse elle, que uma respeitavel dona de casa, uma exemplar mãe de familia, o que quer que seja de Cornelia romana, tem um marido cujo orçamento domestico é em grande parte absorvido pelas immensas publicações,{122} principalmente jornaes, de que o fazem assignante, ás vezes sem elle proprio o saber.