Saí a dizer isto, e todos approvaram o alvitre. Conduzida em braços a doente, entramos na estação, e o telegraphista, vendo-nos chegar, chamou para dentro:

—Clementina! ó Clementina!

N'isto appareceu-nos uma creatura que não teria mais de quatro palmos de altura, vestida muito garridamente com uma saia côr de pombo e um corpete azul; sobre o corpete, cabeção de rendas brancas com fita preta e broche de oiro.{135} Cara redonda e cheia, não despicienda. Mas a cabeça, estabelecida a proporção com a altura do corpo, era excessivamente volumosa. Estava penteada á Maria Stuart, e tinha dois anneis de Cabello empastados sobre a fronte.

Apesar da seriedade do lance, todos os homens trocaram entre si um olhar de surpresa e admiração, que, reduzido a palavras, poderia dizer isto:

—Pois este monstrosinho será a mulher do telegraphista?

E, inclinado o olhar ao telegraphista, o contraste assombrava-nos cada vez mais.

Pelo meu espirito passou este raciocinio:

Casaria elle por amor? Não é possivel. Se não foi por amor, seria por interesse? Mas então como diabo é elle telegraphista e vive pobremente? Arruinar-se-ia no jogo? Oh! aqui ha romance por força...

As senhoras deitaram a doente, depois de a haverem desapertado, sobre o leito conjugal do telegraphista. Nós, os homens, ficamos na sala da estação conversando em voz baixa. O telegraphista fazia-nos, muito polidamente, as honras da casa. Estavamos encantados com elle, com a distincção das suas maneiras, com a sua gentileza em que uma intensa nota melancolica predominava.

—Que era do enfado da viagem, do comer das hospedarias, do calor do dia. Que, se o incommodo{136} não passasse, offerecia a sua criada para nos ensinar a casa do medico.