Ao cabo de tres quartos de hora, a doente deu-se como restabelecida. Amparou-se ao braço de um parente seu, e recolhemos ao hotel, depois de termos agradecido ao telegraphista e a sua esposa os bons serviços que nos haviam dispensado.

Elle disse-nos o seu nome todo, offereceu-nos attenciosamente a sua casa, pobre e humilde como era.

A mulher, erguida nos bicos dos pés, dava beijos ás senhoras e apertou a mão aos homens, sacudindo-a á ingleza.{137}

—Mas que figura de mulher! diziam as senhoras. Que lá bem educada parece ser.

Depois de jantar, nós os homens saímos. As senhoras ficaram em casa. Eu, francamente o digo, convencido de que havia um romance no casamento do telegraphista, desejava conhecel-o. Á segunda ou terceira pergunta que fiz, encontrei homem que m'o contasse.

No principio da sua carreira, o telegraphista fôra para Sines. Rapaz muito bem comportado, grave e sério, toda a gente gostava delle. Ás vezes os rapazes de Sines iam a funcçanatas, bailaricos principalmente, a Santiago de Cacem. Elle ficava sempre; ás dez horas da noite recolhia a casa. Durante muito tempo não se lhe conheceu qualquer inclinação amorosa. E não era, como sabemos, porque fosse mal parecido. As raparigas de Sines não o achavam nada feio.

Passado mais de um anno, alguem disse que o telegraphista namorava a filha de um maritimo ali conhecido.

—Não é possivel! exclamavam alguns.

—Isso só por brincadeira! alvitravam outros. Mas o homem é sério.

Não era possivel, diziam uns, porque a filha do maritimo era aquella creaturinha anã que nós vimos em Thomar. Só por brincadeira, diziam outros, porque, comquanto a cara da rapariga não fosse de todo feia, o corpo não chegava para casar.{138}