Como, arruinando talvez o Falcão do Marco, chegára ella a desposar o brazileiro Araujo, se é que em verdade o havia desposado mais canonicamente do que ao Muxagata e ao Falcão do Marco?

O que seria feito d'aquella creancinha de dois{142} annos, que fôra o fructo do seu primeiro amor criminoso?

Mas eu não estava sonhando, por mais que o Vasconcellos quizesse capacitar-me d'isso.

Não havia duvida. Era ella, a mesma Christina da rua das Fontainhas, a bella lamecense raptada pelo Muxagata, com os dedos cheios de anneis e as mãos dealbadas de pó de arroz.

O Gonçallinho Jervis estava tão encantado com esta surpresa, que me parecia ter ciumes de que fosse eu e não elle que, por um acaso notavel, encontrasse um verdadeiro assumpto de romance.

Ah! ingenuo Gonçallinho! Esse feliz achado representava apenas que eu era mais velho do que elle. Consolação tristissima. Não ha homem vulgar que, no decurso de alguns annos, não encontre na sua memoria um ou mais romances de sensação. Esperasse o nosso Gonçallinho, vivesse mais algum tempo, e os assumptos levantar-se-lhe-iam debaixo dos pés, quando menos os procurasse.

O Leotte, apenas soube que madame Araujo era a Christina da historia do Muxagata, julgou-se um César que tinha chegado, visto e vencido.

O Athayde, o Maldonado e o Vasconcellos eram os que mais reservados se mostravam perante esta situação inesperada, que viera accidentar pittorescamente a nossa excursão a Cintra.

As suas duvidas contrariavam-me, pois que eu não podia deixar de estar plenamente convencido{143} de que madame Araujo era a Christina da rua das Fontainhas.

Procurei convencel-os, e lembrou-me um alvitre que devia acabar por deixal-os inteiramente rendidos á verdade dos factos.