—A Christina da rua das Fontainhas, tal como eu a conheci, gostava immenso de batotear. Saltava nos valetes, e fazia cêrco ás quinas. Pois bem! experimentemol-a. Adiemos por mais dois ou tres dias o nosso regresso a Lisboa. Uma d'estas noites armamos uma banca de jogo. Se fôr ella, é natural que sinta renascer em si a paixão de jogar, que a fascinava no tempo do Muxagata. Observemos se faz saltos nos valetes e cêrcos ás quinas. Se isto se der, meus amigos, não ha mais que duvidar: é ella, sem tirar nem pôr, a Christina do Muxagata.
Este alvitre agradou geralmente, e resolveu-se que ficariamos para realisar a experiencia decisiva.
Era porém preciso proceder com boa tactica, não começar logo por falar no jogo.
Assim se fez. No dia seguinte, madame Araujo, que ia readquirindo entre nós o seu velho habito de conviver com homens, estava quasi familiarisada comnosco, interessava-se pelos nossos passeios, pelos nossos paradoxos, e, sobretudo, mostrava-se deliciada pelos nossos serões, cheios de novidade para ella.
Á noite, como se realmente não tivessemos nenhuma{144} intenção reservada, principiámos por dar a palavra ao Taveira, que ainda não tinha falado. Contasse elle alguma partida do seu amigo Luiz de Lemos, com que tantas vezes nos tinha matado o bicho do ouvido.
—A historia da claque, por exemplo.
—Vocês estão fartos de ouvil-a! disse elle.
—Mas nem madame Araujo nem seu esposo a conhecem de certo.
—Luiz de Lemos! Eu nunca ouvi falar sequer d'esse nome! disse madame Araujo.
O Taveira resolveu-se a contar a historia da claque do seu amigo Luiz de Lemos, que todos nós sabiamos de cór e argumentada.