A morgada, vendo-se só, pareceu respirar com sofreguidão, como o encarcerado que conquista a liberdade e, como elle, pareceu conversar comsigo mesma:

—Que alma de marmore a d'este homem! É um inimigo que tenho de portas a dentro e que conservo porque me não permitte o animo nem a edade travar lucta com tão arteiro contendor, que apara todos os golpes na batina com beatitude irritante.

Depois levantou-se, agitou a campainha, e esperou com os olhos fitos na porta que apparecesse a criada.

—A menina dorme? perguntou.

—Dorme, senhora morgada.

—Accende o candieiro e abre a mesa. Quando bater o sr. Teixeira, manda entrar.

Palavras não eram ditas, resoou a aldrava do portão.

Momentos depois entrava á sala o velho Teixeira, fidalgo retirado das pompas da côrte por conselho da consciencia que o advertia de que estava a empobrecer d'um dia a outro. N'aquelles tempos que precederam a retirada da familia real para o Brazil, as tentações de Lisboa eram tantas, e tão dispendiosas, que não admirava que um cortezão immolasse a celebradas[{16}] damarias o seu opulento morgado do Minho. Alguma coisa salvára porém o velho aulico do muito que na côrte consumira. Trouxera de lá a palaciana compostura que realça até mesmo na decadencia. Maneiras e palavras, pesadas com fina discreção, estavam desculpando a cada passo as sombras que por mais d'uma vez denunciavam não ser impeccavelmente crystalina a reputação das açafatas da rainha D. Maria I.

Entrou o fidalgo e logo correu a morgada a perguntar-lhe anciosamente:

—Que noticias nos traz vossa senhoria?