—Estimei saber o seu nome, porque preciso archival-o no coração. Vim aqui para lhe pedir um grande favor. Tem de ser sua companheira de viagem aquella desgraçada rapariga franceza que ali vê...

—Franceza! atalhou admirado o italiano.

—Sim, franceza. É um mysterio cuja revelação iria augmentar a sua maguada compaixão, meu bom Pietro. Olhe por ella, anime-a, que a pobresinha é muito infeliz, e quem lh'o pede não é menos infeliz do que ella...

O velho aprumou-se, tirou solemnemente o seu barrete de gomos, e disse:[{124}]

—Fique descançado, senhor. Pela memoria de meu filho lhe juro que a tratarei a ella como se fôra elle mesmo. O meu coração até agradece á Providencia esta inesperada companhia que me dá. Corpo di Baccho! que eu estava aqui triste, triste, que já mal podia commigo...

—Obrigado! muito obrigado! exclamou com extraordinaria commoção Graça Strech.

—Vá buscal-a para aqui, tornou o italiano. A minha harpa está habituada a chorar; eu a farei chorar mais uma vez. Quando eu vir que a minha nova filha vae triste, eu a despertarei: Carina! E o canta-storie sempre ha de saber alguma napolitana para cantar-lhe.

Abeirou-se Graça Strech de Rosina. Ella tinha os olhos postos na superficie do mar, immoveis e desluzidos, e deixava rolar as lagrimas livremente pelas faces, como se já não tivesse vida para enxugal-as.

—Rosina! apostrophou elle acordando-a, e com voz que mal se percebia.

Ella estremeceu e fitou-lhe um olhar que se diria inconsciente.