—Rosina! tens ali um companheiro de viagem, que me pareceu tão desgraçado como qualquer de nós. É musico italiano. Volta a Italia porque lhe morreu em Portugal o filho que o acompanhava. Já vês que deve ser infeliz. Levanta-te, anda para ao pé d'elle. Anda, Rosina, minha boa amiga, minha desgraçada irmã. Tem fé, tem animo, já que eu sinto perdel-o... Olha... quero dizer-te uma coisa... Vou confiar-te o meu thesouro, Rosina, o meu thesouro que tão mysterioso te pareceu, e que tanto te fez soffrer... Guarda este annel de minha irmã... Deus sabe se eu algum dia fiz tenção de o tirar do dedo! Que m'o tirassem depois de morto, pouco me importava. A minha tenção era morrer com elle. Mas eu amo-te tanto, tanto, que quero que tu o guardes. Elle já me não póde recordar agora a minha vingança... Quando nosso filho crescer mette-lh'o no dedo, e alguma vez lhe contaremos ambos a historia do annel mysterioso.
Rosina olhava para Graça Strech em dolorosa suspensão. Pareceu accordar, porém, quando sentiu na mão o contacto do annel.
E entrou de beijal-o anciosamente, delirantemente,[{125}] como se fosse para ella uma reliquia mais valiosa do que a madeixasinha de seu pae.
—O que eu soffri por elle, por este annel! disse ella soluçante. Agora o levo commigo, e com elle a tua alma... Senta-te aqui, José, ao pé de mim, não me fujas ainda, que o navio não parte por ora... Lembra-te que esta separação póde ser eterna...
—Eterna! repetiu estremecendo Graça Strech.
—Não, não ha de ser, Deus ha de conservar-nos a vida que nos é mais precisa do que nunca... Mas bem sabes que eu quero gravar bem na memoria as tuas feições, uma por uma, todas, porque te quero ter presente a toda a hora, contemplar a cada instante o teu retrato, tão fiel, tão fiel, que me pareça estar-te vendo... Bem sabes que é uma illusão de que preciso, de que depende a minha vida. Pois se eu me desalentar, se succumbir á saudade,—e baixou timidamente a voz—quem ha de velar por nosso filho, soccorrel-o, beijal-o, amal-o?...
N'este momento deu a sineta de bordo signal para que descessem as pessoas que não eram passageiros.
Graça Strech, não tendo já forças nem coragem para levantar Rosina, fez signal ao italiano para que se aproximasse.
Pietro abeirou-se com a sua harpa, sentou-se ao pé de Rosina, e relanceou a Graça Strech um olhar que parecia dizer: Póde ir.
Rosina escondia o rosto entre as mãos, e soluçava offegante, estrangulada a voz na garganta.