Um dos marinheiros veiu, por ordem do capitão, lembrar a Graça Strech que já tinha dado o signal de bota-fóra.
—Eu vou... respondeu elle machinalmente sem poder desfitar Rosina, e quasi sem força para mover-se.
E, lançando a mão á corda, desceu oscillando como estonteado por uma violenta vertigem.
Na Occasião em que o capitão passava por deante de Pietro, o italiano levantou-se e sorrindo cortezmente lhe disse:
—O capitão dá-me licença que toque na minha harpa o hymno da partida?
O capitão sorriu tambem, e Pietro, inclinando-se para Rosina, exclamou:
—Carina! A minha harpa vae ser de hoje em[{126}] deante a nossa unica consolação. É preciso atordoarmo-nos com a musica. Ahi vae a Capuana para não sentir o barulho de levantar ferro. Agora, para Napoles.
E começou a entoar, acompanhando-se, uma canção napolitana que poderia traduzir-se assim:
Esta tarde na ribeira
Uma hora passeei.
Meu pensamento, occupaste-o
E tanto pensei em ti,
Que o coração lá perdi...
Tu vieste e apanhaste-o.Ensina-me pois agora
A desfazer a meada.
São parciaes os juizes,
E a justiça demorada.
Bem sei que perdia a causa...
Que meio? Lembra-te algum?
Tu lá tens dois corações,
E eu cá não tenho nenhum.Para que nos custe menos
A resolver a questão,
Expliquemo-nos. Ha males
Que ás vezes nos trazem bens.
Vamos fazer um ajuste:
Tu dás-me o teu coração.
E guarda o que lá me tens.
............................
O brigue navegava já. E a musica parecia adormentar aquelles dois desgraçados: um porque levava seu filho; o outro porque o deixava ficar.[{127}]