XV
A queda do gigante
A historia da terceira invasão franceza, comquanto prenda com a nossa narrativa, não lhe é essencial.
Muito de leve passaremos pois pelos acontecimentos que medeiam de julho de 1810 até agosto de 1814 e que, todavia, não podemos supprimir. Limitar-nos-hemos, em conformidade com o nosso plano, a um simples bosquejo não descabido em romance.
O marechal Massena, chegado a Valhadolid, assumiu o commando do exercito francez, que mandou reunir em Salamanca, e marchou sobre Portugal, tomando de caminho Ciudad Rodrigo, que se rendeu depois de heroica resistencia. Quasi volvido um mez, capitulou a praça d'Almeria; havendo soffrido um longo cerco, e tendo sido o paiol incendiado pelo inimigo.
O exercito alliado, em força de setenta mil homens, esperou os francezes nas alturas do Bussaco, onde durante os dias 27 e 28 de setembro se pelejaram duas sangrentas batalhas, sendo grande a victoria para o exercito anglo-luzo, que galhardamente repelliu o inimigo em grande parte dizimado. É esta uma das paginas mais brilhantes da historia portugueza durante o longo periodo das guerras peninsulares.
Os francezes, marchando para oeste, passaram ao Sardão, e d'ahi seguiram para o sul; os alliados, retirando sobre Lisboa, rebateram-n'os nos campos de Coimbra, e em Leiria.
Amedrontado Messena á vista das linhas chamadas de Torres Vedras—sobre as quaes o official inglez John T. Jones deixou uma circumstanciada Memoria, que convém ser consultada pelos que não desdenham saber historia patria—tomou posições á rectaguarda em Santarem e Leiria, esperando reforço para atacar[{128}] as linhas. O exercito francez, consideravelmente derrotado, estava de mais a mais carecido de viveres.
N'esta conjunctura e já entrado o anno de 1811, passou o marechal Beresford ao Alemtejo para se oppôr ao inimigo, o que não impediu que Badajoz capitulasse. Não obstante esta victoria, e um reforço de trinta mil homens que o exercito francez recebeu, começou a retirar nos primeiros dias de março d'esse anno, sendo atacado na retirada pelos alliados, e entrando em territorio hespanhol no mez d'abril. Segunda vez reforçado, atacou o exercito anglo-luzo em Fuentes d'Honor, não sendo ahi mais feliz do que no Bussaco. No dia 11 d'esse mez retomaram os nossos a praça d'Almeida, e pela terceira vez se viu Portugal desopprimido do jugo francez.