Pareciam empenhados os factos em desmentir a prophecia de Napoleão: era a aguia da França que fugia amedrontada para o seu ninho d'além-Pyrineus. O leopardo triumphava á sombra da cruz, que sempre foi timbre dos guerreiros portuguezes.
Á batalha de Fuentes d'Honor seguiu-se outra não menos cruenta—a de Albuera, onde a victoria nos foi descontada pela perda de seis mil homens.
A aguia franceza, a dominadora da Europa, irritada por uma série de desastrosas derrotas, procurou ainda desferir no céo da peninsula o arrojado vôo das suas passadas glorias. Por um momento lhe sorriu a victoria. Substituido Messena por Marmont, o exercito francez logrou tomar-nos a artilharia em Fuente Guinaldo, obrigando os alliados a retirar sobre a fronteira portugueza, mais assignalados ainda na retirada que no triumpho, porque, aguentando o peso da cavallaria inimiga, repelliram todos os ataques, retomando a artilharia. Com a ação de Arroyo-del-Molinos, pelejada a 18 de outubro, cuja victoria coube aos alliados, se encerrou o anno de 1811, com muita honra para os anglo-luzos. Não começou mal auspiciado o anno seguinte, que se estreiou, para os alliados, com a tomada da praça de Ciudad Rodrigo, seguindo-se-lhe a rendição de Badajoz, depois de haver soffrido os apertos de primeiro e segundo sitio. Todavia o maior successo d'esse anno estava reservado para a batalha de Salamanca, em que os dois exercitos, commandados de um lado por Wellington e do outro por Marmont, se[{129}] equipararam em galhardia e pericia, cabendo a victoria—que se reputa a mais celebre de toda a guerra peninsular—aos luso-anglos. Á victoria de Salamanca seguiu-se a tomada de Madrid, e á tomada de Madrid o assedio ao castello de Burgos pelos alliados, que, por desobediencia de Ballesteros, tiveram de retirar sobre a fronteira de Portugal com denodo egual ao que em Fuente Guinaldo os assignalou. Não remata deshonrosamente o anno de 1812, para o exercito anglo-luso com este revez que se póde considerar façanha. Refeitas, porém, as tropas alliadas das perdas soffridas na retirada de Burgos, e já começado o anno de 1813, avançaram até Victoria, onde, na manhã de 2 de junho, se travou batalha geral, retirando o inimigo sobre Pamplona, perdendo artilharia, caixa, bagagens, e salvando-se o rei José, que estivera presente, em precipitada fuga.
Alea jacta erat.
A sorte de Napoleão, pelo que respeitava a ambições relativas á peninsula, havia sido jogada na batalha de Victoria, e a aguia franceza, em cujos olhos brilhava o olhar coruscante do Corso, pela ultima vez cruzava, demandando a França, as cumiadas dos Pyreneus.
No dia 1 de julho entrava o inimigo em solo francez. De nada valeu reforçar-se, e tomar Soult o commando geral. No ultimo dia d'esse mez ganharam os alliados a batalha chamada dos Pyreneus, rechaçando o inimigo para dentro das suas fronteiras. Seguem-se, para honra das armas alliadas, a tomada da praça de S. Sebastião, a batalha de Nivelle, os combates de Bayonna, as victorias de Nive e Orthez, e, finalmente, a triumphal entrada do exercito luso anglo em Tolosa, a 12 de abril de 1814.
Começava, como os acontecimentos o demonstram, a empallidecer no céo da França a estrella de Bonaparte. A lucta, desde muito travada entre a aguia e o leopardo, lucta de morte, encarniçada, contínua, estava chegada a ponto em que já era dado suspeitar que o pedestal de Napoleão não era tão firme como a sua coragem. O contendor, apesar dos revézes, era o mesmo; a fortuna principiava a falhar. A Inglaterra havia vencido, a sorte mostrára-se rebelde, mas o conquistador da Europa,—e para o ser faltava-lhe vencer a Inglaterra—não desesperava de reconquistar[{130}] a sua boa fortuna. Não tomou por aviso da Providencia o desastre. No immenso taboleiro da sua ambição, em que as nações eram outras tantas tavolas que movia a bel-prazer, pareceu-lhe aquelle um cheque sem consequencias para o resultado da partida em que se jogavam os destinos de povos e reis.
Bonaparte ufanava-se de empunhar a balança em cujas conchas pesavam d'um lado a Europa e do outro uma ambição immensa, indomavel, manifestada desde os primeiros passos da sua carreira militar. Comtudo havia na Europa uma nação quasi invencivel, porque o mar lhe servia de muralha, porque os seus recursos economicos prosperavam largamente, e porque as instituições d'esse povo, traduzindo a altivez do genio nacional, eram muralha tanto mais para temer como a que o mar, cingindo as ilhas britannicas, opporia a qualquer invasão. Era tudo isso, e mórmente o regimen liberal da Inglaterra, que incommodava Bonaparte, cujo poderio havia ultrapassado a barreira da tyrannia. O guerreiro feliz imaginava-se senhor absoluto: era a vertigem da victoria. Havia porém um meio de egualar a Inglaterra, como diz madame Staël: era imital-a. Bonaparte, porém, não tinha nascido diplomata. A vista do conquistador é incisiva, rapida, abrange de uma só vez o exercito todo por mais espraiado que esteja; o diplomata tem de profundar, estudar, decompôr, analysar não só os negocios englobados diante de si, mas as suas intimas relações, as suas consequencias proximas e remotas. N'um requer-se o olhar ardente da aguia; no outro a vista penetrante do lynce. Toda a diplomacia de Napoleão se cifrava em preparar os acontecimentos de modo a provocar um conflicto internacional, que tendesse a prejudicar a Inglaterra. Haja vista o tratado secreto de Fontainebleau, em que Portugal e a casa de Bragança eram sacrificados á velha rivalidade dos dois paizes. Bonaparte visava sempre a vencer, não empregando a influencia politica da sua posição, mas empregando a influencia armada do seu exercito. Edificava sobre cadaveres, arriscando a vida dos soldados francezes ao sabor da sua phantasia. Chegado á suprema embriaguez da preponderancia, tanto valia para elle o sangue dos soldados como a corôa dos reis. A sua vontade era lei. Conta-se que[{131}] uma vez um dos seus conselheiros d'estado ousou lembrar-lhe que o codigo napoleonico era contrario á resolução que ia tomar.
Bonaparte respondeu:
—O codigo foi feito para salvação do povo, e, se a salvação do povo exige outras medidas, é preciso adoptal-as.