Estas palavras são transparentes: deixam ver a tyrannia. O povo francez não podia ter vontade livre: vivia affrontado pela sombra de Napoleão e encarcerado na inquisição politica de que o ministro Fouché era claviculario. O cézar dominava tudo: a vontade do povo e a opinião da imprensa. Os jornaes eram thuribulos que vaporavam o incenso da adulação aos pés do throno. Os poetas estavam habituados desde o tempo do Directorio a cantar heroides em honra do Primeiro Consul. Os follicularios poisavam a penna, quando tentavam assumpto que esquecesse a grandeza napoleonica, amedrontados pelo espectro da proscripção. A visão do desterro bastava a intimidar a maior parte d'elles, senão todos. Madame de Staël, que não trepidava deante da estatua gigantea do imperador, teve de procurar refugio em Inglaterra.

E comtudo, na sua origem, a corôa de Napoleão emergira, Venus da realeza, da onda da liberdade!

É certo, mas a estas palavras respondem cabalmente as seguintes linhas da auctora das Considérations sur la revolution française, cujo espirito era profundo de mais para se deixar cegar por despeitos.

«Não bastava,—diz a insigne pensadora—que todos os actos de Bonaparte tivessem o cunho de um despotismo cada vez mais audacioso; devia elle proprio revelar o segredo do seu governo, pois que despresava a especie humana o bastante para dizer-lh'o. No Monitor do mez de Julho de 1810 fez publicar as palavras que dirigia ao segundo filho de seu irmão Luiz Bonaparte criança a quem o grã-ducado de Berg era destinado: Não esqueças nunca, lhe diz elle, em qualquer posição que te colloquem a minha politica e o interesse do meu imperio, que os teus primeiros deveres são para mim, os segundos para a França: todos os outros, incluindo os relativos aos povos que eu pudesse confiar-te estão depois. Não se trata aqui de libellos, de opiniões de partido; é elle proprio, Bonaparte,[{132}] que se denunciou mais severamente do que a posteridade ousaria fazel-o. Luiz XIV foi accusado de ter dito intimamente: O Estado sou eu; e os historiadores esclarecidos apoiaram-se com razão n'esta linguagem egoista para condemnar o caracter do rei. Mas se este monarcha, quando collocou seu neto no throno de Hespanha, lhe houvesse ensinado publicamente a mesma doutrina que Bonaparte ensinava ao sobrinho, talvez que o proprio Bossuet não ousasse antepôr os interesses dos reis aos das nações; e é um homem eleito pelo povo, que quiz encher com o seu eu gigantesco o logar reservado á especie humana! foi n'elle que os amigos da liberdade momentaneamente puderam ver o representante da sua causa! Muitos disseram: «É o filho da Revolução. Sim, é, mas filho parricida: deveriam reconhecel-o?»

Tudo isto é profundamente verdadeiro.

A liberdade franceza ficára esmagada sob a purpura do cézar. Novo Archimedes, levantaria com a alavanca do seu poder a Europa inteira, se a Inglaterra consentisse em ser o ponto d'apoio. Era preciso vencer essa unica difficuldade. Serviu-se pois de todos os meios. Na Historia Secreta do Gabinete de Napoleão Bonaparte, por Lewis Goldsmith, está manifesto o espirito faccioso do escriptor inglez, mas ainda assim ha por vezes a eloquencia terrivel dos factos, e esses não os póde calar a historia. Bonaparte procurou triumphar por mil maneiras differentes, seduzindo com largas retribuições a lealdade dos jornalistas inglezes; mandando a Inglaterra espiões, entre os quaes algumas mulheres, como madame Bonneuil e madame Visconti; procurando sublevar a Irlanda, etc.

Mas estava escripto no livro dos destinos que a Inglaterra fosse o sepulchro da grandeza de Bonaparte. Lord Wellington, perseguindo a aguia franceza desde Lisboa até Waterloo, similhante ao adversario de Macbeth, segundo a expressão de madame de Staël, foi o Josué da historia profana que ousou suster o curso do sol napoleonico em meio d'um longo dia de gloria prolongado em dez annos de lucta contra a Inglaterra.

O cartel de desafio, tantas vezes arrojado á face da nação britannica, volveu-se na hora da decadencia em supplica dirigida ao principe regente d'aquelle paiz.[{133}]

Estas palavras de Napoleão, escriptas em Aix, depois de Waterloo, são claro testemunho da inconstancia das coisas terrenas:

«Alteza real, a braços com as facções que dividem o meu paiz, e com a inimisade das grandes potencias da Europa, puz termo á minha carreira politica. Venho, como Themistocles, sentar-me junto ao lar do povo britannico; abrigo-me á protecção de suas leis, a qual solicito de vossa alteza real como o mais poderoso, o mais constante e o mais generoso dos meus inimigos.