Em muitos olhos brilhavam lagrimas d'alegre commoção, e em todos os labios desabrochavam sorrisos que eram espelho do jubilo da alma.
Que motivo havia, pois, para tamanha festa na cidade cujos habitantes, no lento curso de cinco annos, estavam costumados ao luto e á saudade dos que pereceram na catastrophe da ponte, nas linhas de defeza, nos hospitaes de sangue e dos que posteriormente haviam succumbido na demorada campanha peninsular contra os francezes?
Não eram estranhos os jubilos d'esse dia a tão funestos acontecimentos. Esperava-se a brigada de infantaria do Porto, composta dos regimentos 6 e 18, que victoriosa regressava de França depois de haver pelejado com egual denodo pela restauração d'estes reinos e de toda a peninsula.
Os feitos da brigada de infantaria do Porto haviam soado, com assombro dos portuguezes, em Portugal inteiro, mórmente os que praticára na batalha da estrada de Bayona, em França, no dia 13 de dezembro do anno anterior.[{137}]
O senado da camara tinha-se reunido nos primeiros dias d'agosto para assentar nos festejos com que se devia celebrar o regresso das tropas. Resolveu que se levantassem arcos de triumpho, fazendo-se outras mais demonstrações de alegria, e encarregou da direcção dos preparativos o vereador decano José de Sousa e Mello.
Tratou-se, pois, com febril afan, de executar o programma dos festejos.
Construiu-se sobre a ponte do Poço das Patas a Porta da cidade[13], guarnecida com os castellos que lhe são proprios, e com as insignias concedidas por carta regia de 13 de maio de 1813; collocando-se na cimalha da porta a imagem de Nossa Senhora, que entregava a seu Divino Filho uma fita com a legenda Civitas Virginis.
O gosto da pintura, imitando velha cantaria, muito deu na vista das pessoas que percorriam as ruas e estacionavam boqui-abertas em frente do arco.
Tambem na cimalha foi embutida uma lamina de bronze com este distico:
HINC GENTI HOMEN;
HINC REGNO PLURIES SALUS;
HINC EUROPAE, ORBI
PRIMA LIBERTATIS LUX NOVISSIME AFFULSIT.