Sentia-se asphyxiado na atmosphera em que respirára ao nascer. Punham-lhe medo as sombras; as ruas affiguravam-se-lhe tristes como avenidas de cemiterio. Duas vezes, alta noite, depois de dolorosissima lucta comsigo mesmo, estivera, encostado á parede fronteira á casa em que viveu os primeiros annos da vida, mergulhado em profunda meditação.

A ultima vez fôra a ultima noite que passára no Porto. O céo era d'um azul setinoso. O branco luar de agosto estendia ao longo da rua a sua claridade immovel, e parecia desenhar nos muros contornos phantasticos. Reinava na cidade o silencio imperturbavel das noites profundas. Na janella da sala onde cinco annos antes, por noite tempestuosa, jaziam tres cadaveres, luzia um reflexo mortiço como de lamparina que não tardou a apagar-se. Lembrou-se Graça Strech de que devera ser egualmente pallido o reverbero da luz que lhe tremia na mão quando contemplava os corpos inanimados das trez senhoras. Transportou-se áquelle horrivel espectaculo. Viu tudo. A mãe, a irmã e a avó estavam a seus olhos como n'essa hora tremenda. Não obstante o seu grande empenho, de pergunta em pergunta não lográra saber onde repousavam. Queria ir procurar Rosina, de quem nada sabia tambem, mas desejava despedir-se da familia que ficava, antes de partir para o seio da familia que o esperava. Não pôde realisar o seu desejo. Registos parochiaes não os havia. N'aquella immensa hecatombe da invasão, tambem as sepulturas foram invadidas sem averiguar-se por quem. Tinha[{147}] desesperado de conhecer a verdade, e, já que não podia despedir-se do tumulo da sua familia, fôra despedir-se do predio que ella habitára. De repente, n'uma casa proxima, perpassou uma luz. Fez reparo. Quem velaria ainda áquella hora? Deteve-se a examinar, e certificou se de que ali viviam, no anno de 1809, as duas visinhas que lhe falaram na bateria do Bomfim. Foi isto um como raio de tardia esperança. Recriminou-se pelo esquecimento de não as ter procurado logo que chegou. A desgraça havia-o desmemoriado. Atravessára o Porto como um viajante solitario atravessaria o Sahará—calado, pensativo, sem ver, por ter medo de olhar. Mas—os infelizes duvidam sempre—viveriam ainda ali? Tinha razão. Quem poderia dizer se ellas, na fuga, haveriam chegado ao seu destino, sido attingidas pelas balas ou cahido em poder dos francezes?

A estas perguntas, que a si proprio fazia, só poderiam responder indagações. Pesava-lhe todavia o ter de se aproximar de pessoas cuja conversação iria aggravar a dôr do passado. Se elle soubesse onde repousavam as cinzas da sua familia, lá iria para falar-lhes, para contar-lhes os extraordinarios lances da sua vida, para dizer aos frios restos de sua irmã por que razão não levava comsigo o annel, sobre o qual jurára vingal-a.

Augusta, de dentro do sepulchro, responderia com o perdão implorado.

Mas o que elle não queria era deixar entrever a sua dôr de modo que lh'a avivassem piedosamente, porque a sociedade não dá o balsamo da compaixão sem primeiro rasgar as feridas que a inspiram.

O desejo vehemente venceu, porém, a natural repugnancia. A breve trecho fez tenção de não desaproveitar as poucas horas que lhe restavam para colhêr esclarecimentos. Resolveu-se a esperar que amanhecesse e, como a luz parecesse brilhar com intensidade a través da janella, não se afastou. Mal começava a raiar a claridade da madrugada, apagou-se a luz, e cerca das cinco horas da manha viu Graça Strech abrir-se a porta. Sairam duas mulheres de mantilha, seguidas por uma criada que levava um açafate á cabeça. Fosse reminiscencia ou phantasia, Graça Strech cuidou reconhecer as duas visinhas: tia e sobrinha. Tomou alento e acercou-se. Uma das mulheres, a[{148}] mais nova, voltou de repente a cabeça como se esperasse alguem. Havendo-se enganado, achegou-se da outra e soltou um—ai!—que mais denunciava despeito que medo.

—Não se assuste vossa senhoria, sr.ª D. Izabel! apostrophou Graça Strech serenando a menina que se denunciava medrosa.

Tia e sobrinha olharam fito no desconhecido, e foi a sobrinha quem primeiro exclamou:

—Pois não se lembra, minha tia? Olhe bem para elle!

—Quem é?