—Ora! Quem tem bocca vae a Roma! exclamou a menina. Já nem queria saber novidades da sua antiga visinha! Pois saiba que me vou casar...
—Felicito vossa senhoria.
—Cala-te ahi, tagarella! acudiu D. Eulalia, affastando com o braço a sobrinha. Ha de estar admirado de nos vêr sahir ambas a esta hora. Pois não se admire. Combinamos com as Cerqueiras e as Brochados, tudo visitas da sua casa, sr. Strech,—e com o noivo da Izabelinha—juntarmo-nos na primeira missa que se diz no altar do Senhor dos Passos em S. João Novo e irmos depois almoçar todos á Fonte das Virtudes.
Cumpre dizer que na primeira década do seculo[{149}] XIX era ainda a Fonte das Virtudes o local destinado ás comezainas das familias burguezas do Porto. Ahi se reuniam em ruidosos convivios, deposta a mantilha, e irmanados novos e velhos pelo mesmo apetite e pela mesma alegria.
O camartello das demolições municipaes tem—avis rara!—respeitado até hoje esta legendaria fonte que se compõe d'um alto frontispicio, ornado de pyramides, e firmado em bancos de pedra, que a rodeiam. Rebenta abundantemente a agua por duas enormes carrancas em conformidade com a esculptura de todos os chafarizes antigos. Ladeiam a fonte dois grandes tanques, durante todo o dia, ainda hoje, frequentados por lavadeiras. N'esses bons tempos, ficava a fonte extra muros; sahia-se para ella pela porta a que a fonte deu nome. Ao lado da porta, na eminencia da parte oriental, havia já então os chamados Assentos, actualmente Passeio das Virtudes.
O padre Agostinho Rebello da Costa, na sua Descripção topographica e historica da cidade do Porto, impressa em 1789, escreve ácerca d'este local: «Em toda a cidade, não ha sitio nem mais ameno, nem mais agradavel; porque além da sua bella posição adornada de regulares edificios, gozam os olhos d'um só golpe, vista de cidade, de mar, rio, navios, montes, campinas, quintas e palacios. O grande paredão, que presentemente se está fazendo, para com elle se formar uma praça correspondente á belleza, e magnificencia d'esta agradavel situação, será um monumento eterno do patriotico zelo que Rodrigo Antonio de Abreu e Lima, cavalleiro professo na ordem de S. Thiago, inspector da marinha do Douro, administrador geral dos portos seccos das trez provincias do Norte, e actual juiz da alfandega, mostrou em obrigar o senado da camara a fazer esta obra interessantissima á regia utilidade, e recreio publico.»
Dito o que as historias referem ácerca da Fonte das Virtudes, reatemos o dialogo.
—Divirtam-se vossas senhorias, respondeu Graça Strech, que eu perguntarei sem desvios o que desejo saber. Não me foi possivel averiguar até hoje onde jaz a minha desventurosa familia. Vossas senhorias sabem?
—Casualmente nos disse o sachristão de S. Martinho[{150}] de Cedofeita que tinham ali sido enterradas, se bem que nos não pudesse designar as sepulturas, pela grande confusão de cadaveres que n'esses tristes dias houve.
Isto disse D. Eulalia, acrescentando: