Despediram-se. Ellas seguiram pela rua nova do Almada a baixo, e elle caminhou em direcção ao Campo de Santo Ovidio.
A menina ia perguntando ingenuamente á tia:
—Não seria mau agouro encontrarmos o Strech na occasião em que eu ía a pensar no meu casamento?
—O que tu quizeres! respondeu D. Eulalia. Reza um Credo ao Senhor dos Passos e deixa-te lá d'agouros. Deus é que sabe o que ha de acontecer.
Graça Strech caminhava machinalmente, engolphado em seus pensamentos. A carta era de Rosina. Conjecturava elle que já devia ser mãe quando a escrevia.[{152}] Que diria ella? Coisas tristes, de certo. Os infelizes vivem das desgraças que sonham e que soffrem. Por muitas vezes escrevera elle para Napoles. Nunca obtivera resposta. Aquelle horrivel silencio durava já havia quatro annos. Nem ella nem Pietro escreveram mais! O que haveria acontecido? Que ancia que elle tinha de chegar a Italia, e, ao mesmo passo, que receios! Não o esperariam lá novas dôres, maiores soffrimentos? Que envelhecida mocidade aquella!
Foi andando, andando, até que chegou ao cemiterio de Cedofeita.
Quando viu negrejar cruzes e louzas por entre as verduras dos canteiros, estremeceu de subito. O pensamento da morte vinha interromper os seus dolorosos pensamentos. A sua familia estava ali, mas onde? Rosina e seu filho onde estariam tambem, lá tão longe? O cemiterio era solitario áquella hora, se não falarmos das aves que faziam alegre matinada nas arvores.
Só os noivos e as aves saudam jubilosos a manhã.
Por isso madrugára a menina da rua nova do Almada em competencia com os passarinhos do cemiterio de Cedofeita.
Graça Strech atravessou por entre as campas, confiado em que o coração adivinharia o sitio em que repousava a sua familia. Andou, percorreu as ruas todas, e parou á beira d'uns comoros que não tinham cruz nem lapide. Devia ser ali. As campas dos que não deixam ninguem no mundo conservam-se abandonadas. Quando muito, porque os despojos mortaes são da natureza, veste-as a natureza de relva e flôres silvestres. Sobre um dos comoros floresciam hervagens, que pendiam á terra umas singelas boninas brancas. Seria a homenagem da natureza á innocencia de sua irmã? Não sabia. O silencio da morte guarda todos os segredos. Ajoelhou. As avesinhas das arvores funebres continuavam a cantar, a cantar!...