—É verdade, respondeu exaltado Graça Strech. É verdade... A ancia de chegar... a incerteza... tudo isto... Eu não estava costumado a estas sensações... Por que emfim tudo hoje depende para mim de Italia... Ó senhor capitão, quanto tempo gastaremos ainda?...[{158}]
O capitão, sem responder, achegou-se do outro passageiro e segredou-lhe:
—Eu não lhe dizia? Nunca vi tamanha commocção! Queira Deus que não vá louco...
Ah! o capitão entendia do mar; do coração, não. Chamava loucura áquillo! A desvairada oscillação da alma que pende entre um longo passado de trevas e a unica esperança que lhe entreluz no céo do porvir! É louco o naufrago que, baldeado entre os vagalhões do oceano infrene, se abraça com a prancha que lhe é dado alcançar, e que ou morrerá cuspido contra os fraguedos ou fluctuará por mercê da Providencia até que surja a véla branca, que é a bandeira da paz nas luctas com o mar? É louco o caminheiro que se transviou ao anoitecer e sorri de alegria á estrella da manhã, ainda que tenha de retrocecer para continuar jornada? É louco o doente que se felicita de haver acordado d'um pesadello horrivel, esquecendo-se de que, d'ahi a horas talvez, sobrevirá o sombrio pesadello de que não se acorda mais—a morte?
O coração tem as tempestades e as calmarias do mar, é certo, os murmurios e os segredos das aguas, mas o fundo do coração não está ainda tão estudado como o fundo do oceano. A sondagem mente muitas vezes. Quem já logrou medir a profundeza de certas dôres?
Tinha soado a hora do desengano ou da felicidade.
Graça Strech estava finalmente em Italia.
Começou desde logo a procurar, a procurar. Correu todo o reino de Napoles—Napoleão puzera reis em toda a parte—a pedir informações d'um velho tocador de harpa, que se chamava Pietro, d'uma rapariga franceza chamada Rosina Regnau e d'uma creança, que devia ter quatro annos, e era filha da rapariga franceza. Ninguem respondia. Quem em Napoles, o paiz da musica, havia d'estremar um sonatóre di arpa? Acudia afflictivamente Graça Strech a fazer o retrato do velho Pietro para auxiliar a memoria dos interrogados. Harpistas velhos havia tantos, uns que viviam em Napoles, outros que passavam por lá, que por fim de contas a população lembrava-se de todos e não se lembrava de nenhum. A declaração de chamar-se Pietro nada aproveitava. Ninguem se importa com o nome dos menestreis das ruas, mórmente[{159}] quando todos os musicos ambulantes parece chamarem-se Pietros. Rapariga franceza ninguem dizia tel-a visto, e depois acrescentavam que talvez lá houvesse estado, sem fazerem reparo n'ella, porque os francezes sempre foram tão vulgares em Italia como os italianos em França, por isso que a natureza pôz entre as duas nações a ponte granitica dos Alpes.
Graça Strech percorreu vertiginosamente todas as estalagens, todos os albergues, recolheu informações particulares e officiaes, e não soube nada.
Disseram-lhe que talvez o harpista houvesse passado, como é costume d'elles, a outras cidades d'Italia, por isso que a concorrencia os afugenta de Napoles.