Acceitou o alvitre. Visitou em seguida o reino da Etruria, procurou sem descançar, como um cão que perdeu o faro de seu dono. Uma tarde, em Piombino um albergueiro pareceu recordar-se d'um harpista velho que ali pernoitára havia um anno com uma criança que lhe chamava avô. Vira só o velho e a criança. De mulher franceza que os acompanhasse, não tinha reminiscencia. Fizera reparo nos dois, pelo contraste. O velho passára a noite á lareira com a criança adormecida nos braços, afagando-lhe os cabellos loiros, cobertos pelos seus cabellos brancos, sem dizer uma palavra. Comeu pouco e bebera menos. Pela manhã saíra com a harpa e a criança. Aqui está o que o albergueiro de Piombino dissera, acrescentando unicamente: Quando elle sahia, perguntei-lhe que rumo levava, porque realmente o harpista me fez pena.
O velho respondeu:
—Vamos correr esse reino d'Italia, á mercê de Deus. Bem vê que é preciso trabalhar: somos duas boccas, e só temos dois braços—são os meus que já pouco podem.
A historia do velho e da criança fez profunda impressão no animo attribulado de Graça Strech. Perdeu-se em conjecturas. Seria Pietro? Haveria morrido Rosina? O estalajadeiro não soube dizer-lhe o nome do harpista. Sobretudo, a ideia da morte de Rosina enlouqueceu-o de dôr. Seria possivel que ella morresse sem o ver, sem o ouvir, sem lhe fallar, ella, que tinha tanta coragem, que devia resistir energicamente á morte, porque a morte era a separação eterna?[{160}] Aquella criança seria realmente seu filho, e viveria no mundo sem pae nem mãe, apenas confiado á protecção do pobre harpista napolitano, cuja velhice e trabalhos em breve o prostrariam, se era que ainda vivia a essa hora? E se elle já tivesse morrido, que seria da criança na infantil inconsciencia dos seus quatro annos, que tantos devia ter a ser seu filho? Morreria enregelada no caminho, morreria de fome entre duas arvores, no meio da serra, ou então haver-lhe-ia estalado o pequeno coração depois de haver estado a gritar para que acudissem ao avô, que caíra ao chão e ficára esmagado pela harpa, sem falar mais, sem responder ao seu afflictivo chamar.
O albergueiro começou a notar extraordinaria agitação na physionomia do hospede. Viu encovarem-se-lhes os olhos, e estremecerem-lhe os musculos das faces cadavericas pela magreza e pela lividez. Em breve as contracções nervosas se estenderam a todo o corpo. O caminheiro começou a tremer, a tremer. Trouxeram roupa, cobriram-n'o. Pediram-lhe que se deitasse; recusou. Esteve assim longo tempo, tremendo, frio como o gelo. Depois, como o peso da roupa fosse muito, começou a córar e a suar. Dizia palavras que ninguem entendia. Aprumou-se de subito, sacudiu a roupa. Foi direito á sua maleta, desafivelou-a e tirou de dentro... a guitarra. Começou a tangel-a febrilmente. A gente da pousada entreolhava-se com pasmo. E cada vez as notas se precipitavam com maior rapidez, até que, inesperadamente, a musica foi afrouxando, parecendo unicamente suspirar. Viram chorar o desconhecido, circumvagar um olhar alheiado, e arrancar da sua guitarra apenas gemidos e suspiros dolorosos.
Tornaram a dizer-lhe que era melhor descançar. Recusou com pertinacia.
—Peço que me deixem ficar aqui, disse elle pausadamente para que o comprehendessem.
Não queriam consentir; elle insistiu.
Ouviram ainda por algum tempo suspirar a guitarra, que depois se calou. Foram espreital-o: viram-n'o com a cabeça poisada sobre ella. Estava assim, mas não dormia; d'instante a instante viam-n'o estremecer. Ao romper da manhã saíu. Mal se podia aguentar a pé. Pediram-lhe que ficasse para se restabelecer;[{161}]
[{162}]
[{163}] agradeceu e partiu. Continuou, posto que debilitado, a sua peregrinação indefessa.