O povo, que tinha seguido todo este episodio... (pag. 173)
—Eu já não viveria, dizia elle ás vezes, se não tivesse ido ao cemiterio de Cedofeita buscar esta sombra de fé que me ampara ainda!
E lá ia, descançando uma hora, caminhando duas.
Esteve em Turim. Perguntou, investigou, não soube nada. Como para crear alento, que lhe permittisse seguir jornada, sentava-se nas praças publicas a tocar na sua guitarra. O povo fazia-lhe circulo. Elle não levantava os olhos emquanto estava tocando, excepto se ouvia falar alguma criança. Algumas vezes lhe chamavam louco, porque lhe lançavam dinheiro ao regaço, e elle não agradecia. Era o idiotismo da desgraça. Estava pobre, gastára quanto levára comsigo nos primeiros tempos da peregrinação. Se não fosse a guitarra, morreria de fome. Pouco lhe importava a vida sem Rosina e seu filho. Se não se matava, era porque tinha ainda um resto de fé que o amparava.
Foi a Milão. A mesma canceira: perguntar, sempre perguntar. Inquiria todos os harpistas: nenhum lhe soube dar noticias do velho Pietro.
—Em Italia não estão! dizia elle. Tenho a certeza, não ha recanto que eu não tenha batido.
Atravessou a Suissa sem melhor resultado.
Uma noite sonhou com as Ardennas: era a patria de Rosina. Lembrou-se de que viveriam lá na supposição de que elle, se fosse vivo, logo atinaria, por impulso do coração, com o esconderijo que haviam procurado. Passou a França: foi direito ás Ardennas. Quasi se sentiu morrer diante d'aquelle paiz de florestas. Ali havia nascido Rosina. Como ella o devia amar para se esquecer do seu formoso ninho! Consultou todas as arvores, bateu a todas as portas. De Rosina Regnau ninguem se lembrava; Pietro, o velho sonatóre, ninguem o vira. Graça Strech esteve ali muito tempo: havia já tanto que saíra de Portugal! Teve tentaçoes de se deixar morrer nas Ardennas. Queria respirar ao morrer o ar que Rosina respirára ao nascer. Chegou a pedir a Deus que lhe désse por tumulo o berço d'ella. Mas, emquanto orava parecia fortalecer-se a sua fé.
Resignou-se a partir. Recomeçou a caminhar. Ia no fim o anno de 1816. Disseram-lhe no caminho que no inverno se reuniam em Pariz todos os musicos[{164}] ambulantes. Para lá foi com a sua guitarra. Effectivamente o enxame dos virtuosi enchia os cafés, as praças e as ruas. Á porta dos theatros havia todas as noites uma nuvem d'elles.
A este tempo reinava em França Luiz XVIII. Napoleão, não podendo resistir á colligação das potencias alliadas, abdicou o imperio em Fontainebleau, retirando á ilha d'Elba.