—Oh! oh!

—És tu que vaes mostrar ao Moyses da guitarra a Terra da Promissão! disse um.

—Que elle nos está ouvindo é certo, porque todos repararam! exclamou o de mais dôce semblante. E talvez seja algum desgraçado. Este mundo dos virtuosi[{168}] das ruas tem tantos mysterios! Atravessam Paris no inverno e a gente ouve-lhes a musica sem lhes vêr a alma. Alguns d'elles parecem conversar com a harpa e com o violino: é porque teem que lhes dizer. Decerto que não são alegrias. Póde ser alegre quem atravessa os Alpes a pé, e dorme para ahi em qualquer canto, e vae correr a Europa inteira unicamente fiado na agilidade dos seus dedos e na obediencia das cordas? Creio que não. Parecem despreoccupados, parecem, porque emfim elles teem das aves alguma coisa: as azas pelo menos. Rouba o filho a um passarinho, que elle, com o coração despedaçado, tambem esvoaça em redor do ninho vasio. Pensam vocês que nem ao menos lhes ha de doêr a ausencia? La rimembránza, meus amigos, la rimembránza chora muita vez nas harpas d'elles. Oh! eu creio-o! E nós, apesar de nos deliciarem os ouvidos, olhamol-os indifferentemente. No inverno dizemos: Cá estão! Quando chega a primavera exclamamos: Lá fôram!

—Tu pendes mais para o sentimentalismo, Guillibaud. Maubert prefere a phantasia e o maravilhoso.

—Olha! lá está ouvindo o guitarrista outra vez!

—É notavel! Que curiosidade!

De repente interromperam-se os commentarios. Graça Strech aproximou-se de Maubert pedindo-lhe o obsequio de lhe dispensar dois minutos d'attenção em particular. Havia no seu olhar, nos gestos, na voz, tão claros indicios de grande agitação, que Maubert immediatamente se levantou. Os outros, enquanto os dois sahiam a porta do botequim, ficáram dizendo:

—Este Maubert é um bibliotheca viva d'aventuras.

—Deixa lá, observára condoídamente Guillibaud. A julgar pelo aspecto do guitarrista, o caso afigura-se-me grave d'esta vez. Talvez seja um romance triste...

—Se tu não havias de vir com o teu sentimentalismo!