Os francezes, impossibilitados de seguir o caminho do litoral, que lhes tinha sido ordenado, marcharam para Traz-os-Montes no proposito de entrar em Portugal pelo valle do Tamega. No dia 8 de março estavam as avançadas francezas á vista de Chaves, que no dia 10 foi sitiada, rendendo-se no dia 12. O marechal Soult, vendo-se impossibilitado de guardar os prisioneiros, despediu as milicias e as ordenanças, que estavam dentro da praça, depois de lhes exigir juramento de que nunca mais pegariam em armas. As praças da tropa de linha convidou-as a bandearem-se no seu exercito; ellas unanimemente aceitaram com o proposito de desertar, como aconteceu.

O sonho de Soult era tomar o Porto, e para o realisar tinha nada menos que dois caminhos: o que vae a Villa Real e o que vae a Braga. O marechal preferiu o segundo, por ser o menos accidentado. Chegado que fosse a Braga, só encontraria no caminho do Porto a difficuldade da passagem do Ave em Santo Thyrso. Seguiu, pois, o exercito francez para as alturas de Barroso no dia 14. O general Bernardim Freire d'Andrade, tendo noticia de que os piquetes francezes escaramuçavam na Portella de Avado e em Villarelho da Raia com as avançadas do general Silveira, commandadas pelo coronel Magalhães Pizarro, tomou desde logo todas as medidas possiveis para salvar o Porto, repartindo as suas pequenas forças por Salamonde, Ruivães, Salto e Ponte do Cavez, guarnecendo a raia, e mandando occupar Amarante o brigadeiro Victoria, a cujas ordens militavam o capitão Graça Strech e seu filho.

No dia 15 foi Freire de Andrade insultado pela população de S. Gens, quando voltava de visitar os postos entre Braga e Ruivães. O fim a que avisava o general portuguez era retardar a marcha do inimigo sobre Braga, quanto lhe fosse possivel, para dar tempo a que d'aquella cidade saíssem para a defeza do Porto as munições e o laboratorio. Depois de haver[{22}] expedido ordem ao brigadeiro Victoria para se internar no Porto, recolheu-se Freire d'Andrade no dia 17 a Braga, encontrando por todo o caminho vestigios da grandissima exaltação popular, que se levantára mal que soou a noticia da aproximação dos francezes. Dado o signal de rebate, o povo do Minho saíu em turbamulta a esperar o inimigo em Carvalho d'Éste, e outros logares convisinhos, armado de chuços, fouces roçadouras, e mais instrumentos proprios do seu uso.

Em Carvalho d'Éste houve brodio geral, constante de pão e vinho, a expensas d'alguns particulares patriotas, o que não obstou a que um dos membros da sordida junta de segurança apresentasse o rol das despezas. Procedendo-se a uma collecta geral, que foi voluntariamente paga, ficou o povo duplamente esfomeado, porque a contribuição parece que só aproveitou á junta de segurança.

Avisinharam-se, finalmente, os francezes da cidade de Braga, e conhecendo Freire d'Andrade, no dia 17 em que ali entrou, que era impossivel qualquer defeza, mandou retirar pela estrada do Porto, resolvido a embargar denodadamente o passo ao inimigo n'essa marcha.

Todavia o povo, suppondo-o traidor por não se haver empenhado em acção geral com os invasores, saíu-lhe ao encontro em Carapoa, e já ahi seria morto se lhe não valesse Antonio Berardo da Silva, commandante de uma brigada de ordenanças.

Removido o inesperado perigo, seguiu o general seu caminho, mas encontrando-o as ordenanças de Tabosa, prenderam-n'o e conduziram-n'o a Braga, onde, chegado que foi é prisão do Aljube, a populaça desenfreada o arremessou pelas escadas abaixo, acabando de matal-o ás chuçadas.

Subsequentemente foram tambem immolados á sanha popular, em Braga, o quartel-mestre general de Bernardim Freire, Custodio Gomes Villas Boas, o corregedor da cidade, Bernardo José de Passos, e outros; e em Santo Thyrso, D. João Correa de Sá e Manoel Ferreira Sarmento.

No mesmo dia da morte do general Bernardim Freire de Andrade tomavam os francezes posição em frente de Carvalho d'Éste, sendo repellidos no primeiro ataque.[{23}]

O barão d'Eben commandava as nossas tropas, com as quaes se havia bandeado a gente das aldeias convisinhas. Entre a populaça contavam-se os criados da quinta das Chãs que desampararam o padre capellão, sempre prompto a castigal-os, e odiado por elles.