Pelas onze horas da noite chegaram, para reforçar o posto, a legião de Salamonde e duas companhias do regimento de Vianna. Soldados e povo estavam famelicos. Durante a noite um magote de populares, engrossado pelos criados da morgada, bateu ao portão da quinta. Ao primeiro chamamento não respondeu ninguem; ao segundo assomou a uma das janellas a cabeça silicosa do padre capellão.
—Pão e vinho! gritou a turba.
—Não está cá a senhora morgada, tartamudeou o reverendo.
—É o mesmo; abra a porta, contestou o gentio.
Como porém a impaciencia da turba fosse muita, a populaça metteu a porta dentro a tempo que o padre atravessava o pateo de lampeão em punho.
Um dos populares vibrou-lhe uma chuçada que o prostrou, e logo outro, que era criado da casa, acrescentou:—Vamos á burra do padreca; no que fôr da senhora morgada não se toca.
No dia seguinte atacou o inimigo novamente Carvalho d'Éste, e no dia 20 voltou ao ataque, apparecendo em grande força.
Parece que a Providencia havia aconselhado a morgada das Chãs a fugir de um ponto onde a lucta foi mais renhida, porque, posto que os populares a respeitassem, o inimigo caiu no dia 20 em forte columna sobre Carvalho d'Éste, empenhando-se ataque geral, e sendo desesperada a posição dos nossos, que fugiram em grande confusão, acossados muito de perto pela cavallaria franceza.
No pateo da quinta das Chãs tinham os nossos quinze barris de polvora que, não podendo ser salvos, por estar muito proximo o inimigo, foram incendiados por ordem do barão d'Eben, perecendo oito homens na execução d'esse serviço.[4] As chammas, enleiando-se pelos alpendres encostados ao edificio, acabaram por envolvel-o, e, horas depois dos francezes[{24}] entrarem em Braga, e a tempo que o povo enfuriado matava os presos encarcerados no Aljube, ardia, chammejando como fornalha enorme, o solar das Chãs, a duas leguas de distancia da cidade invadida.
A noticia da tomada de Braga só se soube no Porto no dia 22, quer dizer, quarenta e oito horas depois.