Cobriu o rosto com o lençol, e começou a chorar e a gemer. Por mais que lhe dissessemos, a locandeira e eu, que procurasse socegar, não o conseguimos. De noite delirou. Falava do signor, Strech, d'Augusta, de Coimbra, do mar, do annel. A febre era muita. Estáva córada como se as faces fossem duas rosas: Eu tinha a menina nos braços; a locandeira amparava a signora.
Pela manhã adormeceu. Acordou muito fria. Estava peior. Chamou-se o doutor, que receitou, e disse que a signora corria grande perigo. Apesar dos remedios, não aqueceu em todo o dia. Ao fim da tarde, quando eu estava acalentando a menina para adormecel-a, a signora deu de repente um grito, sentou-se na cama, disse que não via, tornou a dar outro grito, e cahiu morta.
N'essa occasião chorava a criança como se adivinhasse que estava orphã.
Fiz um enterro decente á signora Rosina, adquiri, com o auxilio do consul, o direito de a sepultar n'uma campa perpetua e mandei-lhe pôr um singelo epitaphio que diz: «Aqui jaz Rosina Regnau.»
Escrevi para Portugal a dar parte do triste acontecimento, que me custou talvez mais—Deus me perdôe!—do que a morte de meu filho.
Não recebi resposta, nem tornei a receber mais cartas. Quiz partir para Portugal. Informei-me. A guerra continuava cada vez mais renhida. Que havia eu de ir fazer a Portugal com uma harpa ás costas e uma criança ao collo? Demorei-me ainda um anno em Napoles para dar tempo a crear-se a menina. Foi uma ama dos arrabaldes quem a amamentou.
Eu ia todos os dias vêl-a, e saber da ama se era preciso alguma coisa. Durante esse tempo não recebi carta do signor Strech. Não obstante, continuei escrevendo sempre. Sabia-se que continuava a guerra. Não tinha certeza de que as minhas cartas fossem entregues, e de que o signor vivesse ainda. Maguava-me tão longo silencio, porque emfim eu cada vez ia envelhecendo mais. Ao cabo d'um anno peguei na menina e na harpa e comecei a minha peregrinação, porque estava exhausto de recursos. Em Napoles ha sempre muitos musicos, e a concorrencia prejudicava-me. Alguns eram velhos, e estavam tão pobres como eu. Além d'isso, fallecera a dona do albergue,[{181}] repentinamente, e quando eu sahia entravam os crédores. Tive pena d'aquella boa mulher que tão caridosamente tratára da signora Rosina. Como ella sabia do nosso segredo, habituei-me a consideral-a pessoa de familia. Nunca essa honrada creatura revelára a ninguem as máguas da mãe d'Augusta. Eu tinha a certeza. O segredo descia com ella á sepultura. Senti os olhos rasos de lagrimas quando a vi sahir para o cemiterio e me encontrei com os crédores que entravam. Era preciso ganhar vida, porque eramos duas pessoas a alimentar, melhor direi pessoa e meia. Fui andando e tocando harpa. As noites, dormia-as com a menina ao collo. Se eu era avô! Ás vezes apertava commigo a tristeza. Lembro-me de que uma noite em Piombino, n'um albergue onde me recolhi, me deixei entristecer tanto, contemplando a menina adormecida nos meus braços, lembrando-me ao mesmo tempo da signora e do signor, ambos mortos para ella, que, francamente o confesso, n'essa noite envelheci dez annos. Todavia, logo que nascia o sol, nascia com elle o grande lenitivo dos desgraçados: o trabalho. Ia tocando na minha harpa, e vivia. Uns davam-me esmola por me ouvirem; outros por me vêr com a menina: muita vez o conheci.
Corri a Italia toda: vi bem a minha patria. Entretanto a menina ia crescendo. Que espertesa que revelou desde os primeiros annos! O seu gosto era estar a bulir nas cordas da harpa. E o caso é que ás vezes, acaso ou não, combinava sons. Lembrei-me de que a menina podia aprender musica. Seria o seu dote. Bem precisava ella d'algum. Tinha nascido tão pobre, que me considerava seu avô, a mim, um musico ambulante! Com oito mezes d'aprendizagem era um gosto ouvil-a! Parecia impossivel! Dispensei-me de tocar, porque as mãosinhas da menina eram um prodigio! Bastavam ellas para fazer a colheita que era sempre abundante. Comprei roupa á menina; trazia-a uma princesasinha. Verdade é que sempre de luto. Todo o meu fim era obrigal-a a perguntar-me porque vestia de preto. Queria gravar-lhe bem na memoria os soffrimentos de seus paes, que extraordinarios foram em verdade. E se fores tu, Augusta, que leias este papel, e não teu pae, como muitas vezes acredito que serás, mais uma vez te peço que conserves sempre viva em teu coração a memoria d'esses dois grandes[{182}] desgraçados, que mais o foram por tua causa. Mas que talento o d'essa criança! Ainda outro dia, em Pariz, um rapaz esculptor pediu o meu consentimento para nos modelar a ambos em gesso. Não foi por minha causa, não. Eu não tenho orgulho senão de ser avô da menina... Avô! Sim, pelo coração não posso deixar de o ser. O verdadeiro avô não lhe quereria mais. Mas o tal esculptor encantou-se com a menina. Quem se não ha de encantar? Modelou-a. Foi a primeira estatua levantada em honra da pequenina harpista. A mim modelou-me de certo pelo contraste. Deu-lhe graça vêr a cabeça d'um velho ao pé do rosto d'uma criança. E que formoso rosto, sangue di Christo! Como eu gostei de ver a menina assim retratada! Mal diria eu que um mez depois havia de soar a hora de me separar d'ella. Não me custa deixar o mundo, onde se soffre tanto; custa-me deixal-a a ella, porque a amo muito. Não quero, porém, ser ingrato para com Deus. Grande mercê me fez em me não levar quando a menina era mais pequenina. Egora sinto-me sem forças. Ha muitos dias que estou doente. Não tenho querido acamar para não entristecer a menina. Mas hoje, a tal ponto receio por mim, que vou mandar chamar o meu velho conhecido Giovanni para lhe fazer as minhas ultimas disposições.
Dizem todas respeito á menina.
Giovanni ficará depositario d'ella, que é o meu thesouro. Giovanni é preguiçoso, mas um verdadeiro homem de bem. Muitas vezes tive occasião de o reconhecer. Eu não podia fazer melhor eleição. A minha harpa, que lego á menina, ganhará para os dois, e Giovanni será incapaz de guardar para si o que pertencer á menina.